Corin Srie Azul 77
Meus trs Carinhos
Me turba su timidez
Corin Tellado

Disponibilizao: Marisa Helena
Digitalizao: Marina
Reviso: Gaby G



       Ttulo original: ME TURBA SU TIMIDEZ (c) Corin Tellado
       Direitos exclusivos para o Brasil
       CEDIBRA - EDITORA BRASILEIRA LTDA. 1* edio - MCMLXXX
       Distribudo por: FERNANDO CH1NAGLIA DISTRIBUIDORA S.A.
       Composto e impresso pela Cia. Editora Fon-Fon e Seleta



     CAPTULO 1
     - No h coisa mais fcil do que conquistar uma garota - dizia Jaime Soto rindo. - A maioria anda louca para casar-se e fazem o diabo para caar um otrio. 
Outro dia, uma delas tomou uma bebedeira e se agarrou comigo que no foi fcil. Todo mundo sabe que sou um paquerador de primeira, mas no costumo me aproveitar 
de uma mulher bbada. Assim, o que fiz foi lev-la para respirar ar puro, depois a meti no carro e a levei em casa.
     Pablo Salinas no dizia nada. Bebia seu usque.
     Contemplava absorto seus amigos, ouvia o que diziam, mas pensava consigo mesmo que com ele "as mulheres no eram to fceis assim". Se no largasse o dinheiro, 
nem prostituta saa com ele. Chegou a invejar Jaime pela sua sorte com garotas.
     Daniel Cubillas olhava para Jaime comi ansiedade.
     - No me diga que a levou em casa sem ter tirado umas "casquinhas", primeiro.
     Jaime fez um gesto de suficincia.
     - Bem, h ocasio para tudo, no? Aquela no era para se tirar "casquinhas". No seria correto.
     Estavam os trs em uma cafeteria do centro.
     Era sbado e em tais noites, alm de sarem cedo, comiam em qualquer parte e iam danar e paquerar.
     Em torno  mesa com usque e cuba-libre, pareciam esperar algum. Jaime falava, mas olhava aqui e ali. Pablo estava absorto, enquanto Daniel bebia as palavras 
de Jaime.
     - Sbado passado - dizia Jaime, que era o que mais falava, - acabei arranjando uma loura sensacional. Levei-a a uma discoteca e depois, ela me convidou para 
o apartamento de uma amiga. Foi uma farra danada. Nem sei como cheguei depois em casa...
     Pablo pestanejou.
     Aquele sbado em questo, ele ficara na cafeteria com uma moa, com quem conversou sobre poltica, at que ela, dando um pretexto, despediu-se dele, deixando-o 
sozinho at o fim da noite.
     - Veja quem chega a - exclamou Daniel tocando no brao de Jaime.
     O aludido ajeitou a gravata, alisou o cabelo com a mo e ficou pronto para o ataque.
     As moas eram trs, entravam na cafeteria. De calas compridas, camisetas e bolsas penduradas ao ombro, lindas as trs, charmosas e femininas.
     Pablo ficou imaginando Jaime se levantando, chamando-as e elas acudindo sorridentes. Daniel tambm, embora menos exibido que o amigo; e ele, mais morto do que 
vivo, sem coragem sequer de levantar os olhos. Maldita timidez a sua! No era capaz de dizer nunca uma brincadeira, de rir abertamente, de dizer uma piada. Nem de 
dizer algo interessante, que causasse a admirao de qualquer moa.
     As trs que chegaram lhe agradaram. Irene era uma morena sensacional, Luisa uma castanha de olhos negros lindssima e a outra, Patrcia (Pat para eles) loura, 
de olhos azuis e atraente como qu.
     Nenhuma delas, porm, reparava nele. Era apenas um "ol, Pablo", e nada mais.
     Com Jaime, se derretiam, em sorrisos, bebiam, conversavam, danavam e se divertiam escandalosamente.
     - Eh, Luisa, Pat...
     A voz de Jaime era potente e se fez ouvir, apesar do rudo reinante. As moas sorriram e vieram naquela direo.
     - Ol, rapazes! - olharam para Pablo. - Ol, Pablo - depois se dedicaram a Jaime, e um pouco a Daniel tambm.
     - Sentem-se - disse Jaime, puxando cadeiras. - Afaste-se um pouco, Pablo - o aludido obedeceu documente. - Que calor, eh? O que vo fazer esta noite, meninas?
     Luisa tirou da bolsa trs entradas.
     - Vamos ao cinema.
     - Com uma noite linda como esta? - alarmou-se Jaime. - No sejam loucas. Espervamos vocs para irmos a uma discoteca. No vo nos decepcionar, verdade? Nada 
de cinema - Jaime tirou-lhe as entradas da mo. - Iremos danar.
     
     - E foram? - perguntou Lina olhando seu irmo.
     Pablo subira para comer.
     Usava um macaco branco com o nome da oficina nas costas. Era o sobrenome Salinas. Sob o macaco, vestia uma camisa azul impecvel e tinha as mos limpas.
     Lina dava os retoques na mesa do almoo para que Pablo comesse, j que seu marido chegava bem mais tarde do banco. E depois de comer e descansar um pouco, ia 
 oficina de Pablo, onde se encarregava da contabilidade.
     - Claro que as convenceu. Jaime consegue tudo, com aquele papo descontrado.
     - Bem, se eram trs garotas, uma ficou para voc.
     Pablo suspirou.
     - Fiquei com a que sobrou. Sabe, Lina? Qualquer dia desses, no saio mais. Vejo que s sirvo para os negcios. Consegui transformar uma oficina de conserto 
de bicicletas, na melhor oficina de automveis da cidade. Junto s mulheres, no passo de um boboca.
     Lina, que adorava o irmo, sentou-se ante Pablo e sorriu-lhe afetuosa.
     - Voc no tem por que ser complexado, Pablo. Esse tal Jaime, a quem tanto admira, pode ser um tipo divertido, mas no  o tipo ideal para marido.
     - No sei. O fato  que as mulheres o adoram.
     - Voc gosta de alguma dessas moas? So sempre as mesmas?
     - Existem muitas, mas essas trs so mais freqentes. Duas so professoras de Educao Geral Bsica e a outra  secretria de direo de uma empresa metalrgica.
     - Mas Jaime deve ter preferncia por alguma.
     - No, no. Jaime prefere a que estiver mais perto. Imagino que fale com todas elas que pretende se casar.
     - Enquanto come, v me contando o que aconteceu ontem, quer?
     - J lhe disse. Fomos danar e fiquei com a que sobrou. Tentei dizer-lhe alguma coisa espirituosa, interessante. Algo que a fizesse gostar de mim, e nada. Acho 
que no disse duas palavras e como pode compreender, as garotas se cansam ao meu lado - levantou-se. - Vou dar uma olhada em seu carro e depois vou me arrumar. Jaime 
e Daniel me esperam na cafeteria.
     - Deixe o carro que no vamos precisar hoje dele, Pablo - disse sua irm. - Alberto vai assistir ao jogo de hoje pela televiso. Hoje  domingo, no deve trabalhar.
     - S vou dar uma olhadinha.
     - E outra coisa, Pablo. Arranje outros amigos mais srios. Jaime e Daniel no combinam com voc.
     Pablo sacudiu os ombros.
     - Somos amigos desde crianas, e no gosto de fazer novas amizades, e mesmo sendo to diferentes de mim, sei que posso confiar neles. Ningum tem culpa de minha 
timidez, Lina. Jaime sempre foi alegre e conversador, e sempre teve sorte com garotas.
     - No sei o que h com as moas de agora, que caem em qualquer cantada.
     - No  isso, Lina. Elas agora so mais companheiras, falam a mesma linguagem dos homens, bebem com eles, riem de piadas pesadas, e tratam o sexo com a maior 
naturalidade.
     - Todas?
     - As que conhecemos, sim. E no pense que so vulgares. Acredito mesmo que nenhuma delas tenha permitido a Jaime mais do que um beijo, uma carteia.
     - Bem, e voc gosta de alguma delas? 
     Pablo hesitou.
     Ele sempre contou tudo para Lina.
     Sua irm era dez anos mais velha do que ele e sempre agiu como uma espcie de me e conselheira.
     - H uma que eu tenho especial inclinao, mas com essa mesmo  que no abro a boca para dizer nada. Chama-se Pat,  a secretria da empresa metalrgica.  
ai que vai menos  cafeteria, pois trabalha todos os dias at tarde. As outras, aps as aulas, esto sempre aparecendo para um papo alegre.
     - Voc tem trinta anos, Pablo, precisa se casar. Por que no se decide logo por essa tal moa de quem gosta?
     - Tenho medo que ela zombe de mim.
     - E por que zombaria? Voc  simptico, tem dinheiro, um negcio seguro...  um homem ntegro. A menos que ela seja frvola...
     - Eu creio que nenhuma das trs o , mas... - encolheu-se. - No, no posso. Deixe, Lina. Sei que quer me ajudar, mas no  possvel. Nasci assim, no vou mudar 
nunca. Infelizmente.
     
     CAPTULO 2
     Patrcia chegava chateada, Irene e Luisa tentavam tranqiliz-la.
     - Menina, no h de ser nada.
     - No  nada para vocs, mas para mim, que percorro vinte quilmetros todo dia, e tenho o carro enguiado, no  nada fcil. Como chegarei amanh  empresa?
     - Irene, Luisa, Pat - ouviram cham-las.
     Pat se deteve e olhou na direo da voz. Depois, virou-se para as amigas.
     - L est aquele idiota. Olhe aqui, Luisa, no v rasgar entradas s para sair com esses trs bobocas.
     - No fale assim, Jaime  um encanto.
     - Jaime  insuportvel.
     - Pois eu acho que ele est de olho em voc.
     Pat fez um gesto desdenhoso.
     - No me agrada nada. Fala demais, e pensa que  engraado. Se vocs concordam, samos e damos uma desculpa.
     - Est com raiva por causa do carro enguiado.
     - E como estaria voc, em meu lugar? No posso arriscar chegar tarde no meu emprego. Consegui-o com sacrifcios.
     - Explique seu problema ao chefe. Ele h de entender.
     - O chefe tem seus prprios problemas, para querer saber do meu.
     - Por que no apanha um txi? - sugeriu Luisa.
     Pat a fitou desconcertada.
     - Voc deve achar que dinheiro cai do cu.
     - No seja mesquinha. Voc ganha muito bem.
     - Claro, mas se comear a andar de txi daqui para l, fico sem dinheiro - balanou a cabea. - Samos?
     Jaime as chamava e Luisa, que estava interessada nele, disse:
     - Podemos arranjar a desculpa depois. Mas agora... no fica bem deix-los com cara de bobo.
     Pat encolheu os ombros e, juntas atravessaram a cafeteria at o balco onde Jaime e Daniel estavam apoiados.
     - Hoje no  um dia bom - foi dizendo Luisa. - O carro de Pat est enguiado e ela no sabe como ir amanh para o trabalho.
     Jaime, que sempre tinha solues, exclamou:
     - Isso tem soluo. Pablo est para chegar. Como sabem, ele tem uma oficina de consertos de carros.
     - E acha que num domingo vo consertar alguma coisa? - perguntou Irene divertida.
     - Claro, para isto servem os amigos. Quando Pablo chegar, falarei com ele. Fique em paz, Pat.
     Pat acendeu um cigarro sem retrucar.
     No estava nada satisfeita. Detestava abusar da boa vontade dos outros, ainda mais de um sujeito srio e calado como Pablo.
     Coitado, era um chato que no sabia dizer duas palavras. Ela no apreciava tipos bonaches como Jaime, mas tambm no suportava gente sem graa.
     Conheceram-se os seis naquela ltima temporada de inverno, na neve. Elas iam todos os domingos esquiar e foi no bar da montanha que se tornaram amigos. Jaime 
no esquiava. Ia muito ali, porque era um local alegre e animado.
     Daniel esquiava, mas muito mal. O nico que sabia realmente esquiar, era o "mudo"... Entre elas, o chamavam assim. O mudo. Porque Pablo quase no dizia nada, 
de vez em quando sorria levemente. E s. No participava nunca das conversas.
     Agora, era pleno vero, costumavam ver-se na praia. Daniel no era de todo antiptico, mas Jaime era cansativo demais. Pablo, coitado, era at absurdo.
     Um tipo introvertido, srio, s vezes parecia um senhor de cinqenta anos, embora fosse at atraente. Mas no chegava a ser simptico, era mais um cara apagado.
     - No sei porque Pablo demora tanto hoje - dizia Daniel. - Mas no se preocupe, Pat. Em dois minutos ele deixa seu carro perfeito.
     - No vou pedir a ningum que, num domingo, se meta a consertar meu carro.
     - Pode ser uma coisa de nada, - riu Jaime. -  s Pablo dar-lhe um toque, e est tudo arrumado.
     - De qualquer jeito, prefiro lev-lo amanh a Seat.
     Luisa a olhou assombrada.
     - E em que ir  oficina?
     - Sei l - tornou a se irritar. - Depois verei isso.
     Pablo entrava naquele instante. Eram cinco e meia, e ele vinha de mos nos bolsos da cala bege, a camisa com as mangas arregaadas, um ar distrado, o andar 
meio lento.
     Era um tipo forte, de compleio atltica. Moreno, cabelo e olhos muito negros.
     Os amigos o receberam alvoroados, mas Pablo olhou para todos e depois de um "ol", olhou para o garom e pediu um usque.
     - Temos um servicinho para voc, Pablo - disse Jaime.
     Pat interveio:
     - No ligue, Pablo. No temos nada.
     -  claro que temos. No seja boba, Pat - disse Daniel. - Amigos so para estas coisas.
     - No  preciso. Amanh o levo a Seat e se no me entregarem logo, consertado, apanho um txi para ir ao trabalho.
     - Mas pode ser que seja uma coisinha de nada - disse Jaime.
     Pablo, a esta altura, no entendia mais nada.
     - Do que esto falando? - perguntou afinal.
     Jaime lhe disse em duas palavras.
     Pat foi logo dizendo, enrgica:
     - No se incomode, Pablo. Amanh dou um jeito nisso.
     Pablo tomou um gole do usque.  claro que no lhe custava nada dar uma olhada no carro, mas tinha vergonha at de diz-lo.
     - Se... voc quiser..., posso dar uma olhada, Pat.
     - No, no. Amanh eu o levo a uma oficina.
     - Mas que teimosia - exclamou Jaime. - Se Pablo tem a maior boa vontade...
     Pablo confirmava com a cabea.
     Mas Pat no queria favor de nenhum dos trs. Jaime falava muito, Daniel era um pouco mais simptico, e Pablo parecia um bobalho completo.
     - Onde est o carro? - perguntou Daniel.
     - Diante de minha casa. 
     - Fica perto. Vamos at l.
     - J disse que no  preciso.
     - Vamos, Pablo?
     - Sim... Vamos.
     - No  preciso - impacientou-se Pat. 
     Pablo tomou coragem.
     - Por mim, no h inconveniente, Pat. Pode ser uma avaria grande, mas... tambm pode ser uma coisa de nada. 
     Pat hesitou.
     Bem que precisava do carro, mas...
     Era domingo. Pablo estava limpo, bem arrumado e imaginou como suas mos ficariam, depois que examinasse o carro.
     - No, j disse. Darei um jeito amanh.
     Todos se puseram a falar ao mesmo tempo. Menos Pablo,  claro. Disseram que isto, que aquilo, que ela no os considerava amigos, e coisas parecidas.
     At que ela decidiu:
     - Bem, ento vamos, Pablo e eu. 
     Pablo tomou o resto de sua bebida e levantou-se.
     - Vocs fiquem aqui. Levarei Pablo at onde est estacionado o carro.
     - V, Pablo, acompanhe-a - disse Jaime.
     Pablo se endireitou.
     - Vamos - disse timidamente. Os dois saram.
     Pat ia dizendo:
     - No sabe como me chateia que voc suje as mos.
     - Estou... acostumado.
     - No sabia que voc tinha uma oficina.
     - ... tenho uma.
     - O carro est parado junto a minha casa.
     Atravessaram a rua um junto ao outro. Pat fez tudo para manter a conversa durante o trajeto, mas Pablo s balanava a cabea, dizendo que sim ou que no.
     Chegaram ao carro. Pablo foi entrando. Estava no seu ambiente. Daquilo ele entendia.
     
     CAPTULO 3
     -  um probleminha de embreagem - disse rapidamente depois de examinar o carro. - Posso arrum-lo em um segundo. Prendo-o de qualquer jeito e o levamos at 
minha oficina, onde poderei fazer o melhor o trabalho, o suficiente para que saia amanh e, aps o expediente passe por l que eu termino de consert-lo.
     Pat estava assombrada.
     Dentro do carro e com as duas mos apoiadas no volante, Pablo adquiria uma personalidade desconhecida para ela.
     Pablo continuava dizendo, com sua voz forte:
     - Quando o levou  oficina a ltima vez?
     - Nunca.
     - Nunca?
     - No. Comprei-o, tirei a carteira, pus as mos no volante e tenho sado com ele.
     - E o leo? Nunca trocou leo?
     - Acredito que faam isso na garagem.
     Pablo olhou para o cartozinho pendurado no volante. Lanou uma exclamao e at uma praga.
     - Mas, Pat, assim o motor se funde - desceu do carro, levantou o capo, mexeu numas coisas que Pat no entendia e sentou-se de novo junto a ela. - Iremos at 
minha oficina - decidiu. - Tenho que dar uma olhadinha neste carro.
     Pat jamais ouvira tantas palavras seguidas de Pablo, por isso o olhava como se acabasse de conhec-lo.
     Aquele tipo que a olhava e lhe sorria nada tinha que ver com aquele homem calado que ela conhecia.
     - Importa-se de vir comigo at a oficina?
     - No. Claro que no. Mas o que me chateia  que seja forado a abrir a oficina num domingo.
     - Fao-o com muito prazer - murmurou Pablo, sincero. - Hoje lhe sirvo, amanh voc poder me servir. E depois, eu gosto de servir a meus amigos.
     Enquanto Pablo conduzia o carro pelas ruas da cidade, ela perguntou:
     - Voc  muito amigo de Daniel e Jaime?
     - H muito tempo nos conhecemos, desde pequenos. Sempre que podemos, nos reunimos - de repente ficou algo corado, o que deixou Pat comovida. - Jaime  tcnico 
em uma empresa particular e eu me dediquei a aumentar uma pequena oficina de bicicletas que meu pai me deixou ao morrer.
     - Vive s? - perguntou interessada.
     - No. Com uma irm mais velha, que tem um filho de oito anos e a quem eu quero muito. Tem me ajudado muito, desde que ficamos rfos - parecia que lhe davam 
corda, com um volante nas mos. - Com o tempo, fui comprando a crdito alguns equipamentos e trabalhando muito, dando duro, fui conseguindo montar minha oficina 
de consertos de carros - deu uma risada, e acrescentou: - Hoje, graas a Deus, j paguei tudo o que devia e posso ajudar minha irm tanto quanto ela me ajudou sempre 
- fitou-a e tornou a sorrir. - Eu poderia viver sozinho. Comprei um apartamento contguo ao de minha irm e est todo mobiliado, mas no sei viver sozinho, prefiro 
ento ficar com Lina, seu filho e seu marido, com o qual, alis, me dou muito bem. Somos como irmos.  ele quem faz a contabilidade de minha oficina.
     O carro deixava o centro da cidade.
     - To longe fica, sua oficina?
     - E a casa. So dois chalezinhos na mesma rea da oficina.  como se fossem duas casas separadas, pequenas e acolhedoras.
     Dobraram  esquerda, deixando a avenida residencial.
     - Est vendo l abaixo?  a oficina e a garagem.
     Pat, que no sara de sua perplexidade, olhava para Pablo como se no pudesse crer no que estava ouvindo e vendo.
     - Fica fora da cidade, mas muita gente vem aqui. As coisas correm bem, tenho cinqenta homens me ajudando e me entendo muito bem com todos eles. A garagem, 
eu fiz para guardar os carros do pessoal que moram em apartamento ou casa sem garagem.
     Pat, cada vez mais abismada, recordou a noite anterior, a seu lado.
     Pablo no disse duas frases seguidas. 
     Fumava, bebia, e de vez em quando dava um meio sorriso.
     Naquele instante, freando o carro diante da oficina, as palavras pareciam fluir de sua boca.
     - Darei uma olhada agora, mas amanh quero que o traga de novo, para que possa fazer o servio completo. Prestou ateno no caminho que fizemos para chegar 
aqui?
     -  fcil - murmurou Pat. - Quando eu sair do escritrio, passarei aqui.
     - timo. Desa, se quiser, ou se preferir, fique a sentada, que eu cuido disto em um segundo.
     Pat preferiu descer e olhar em torno.
     A oficina era enorme, com vrios ptios de reparao, lubrificao, lavagem, tudo o que se pudesse pedir.
     - Terei que vestir o macaco. Espera um pouco, Pat?
     - Claro.
     - Obrigado.
     E se perdeu pela oficina aparecendo pouco depois, metido num macaco branco manchado de graxa.
     - Quem anda por a? - ouviu Pat perguntar de alguma parte.
     Levantou o rosto, enquanto Pablo metia a cabea e as mos no motor.
     -  minha irm - ouviu-o dizer.
     Pat procurou divisar um rosto feminino. Viu-o no alto do terrao de um dos chals paralelos.
     A mulher, vestida de claro, delgada e alta, descia em direo a eles.
     - Pablo,  voc?
     - Diga-lhe que sim, Pat.
     Pat se adiantou para a mulher que estava prxima.
     - Sim,  Pablo. Voc  Lina?
     A aludida olhou, para Pat com ateno.
     - Sim - disse. - E... voc?
     - Sou uma amiga de Pablo. Meu carro enguiou e como amanh tenho que ir trabalhar e fica algo longe de minha casa... Pablo se ofereceu para ajudar-me.
     Lina estendeu a mo e apertou a que Pat lhe estendia.
     - Chama-se Pat, Lina - berrou Pablo com a cara enfiada no motor.
     Pat!
     Lina sorriu dizendo:
     - Levei um susto. No fazia nem uma hora que Pablo sara em seu carro, e apareceu este outro... No pensei que fosse ele.
     Pablo se ergueu, limpando as mos em uma estopa.
     - O leo est imundo, Pat - dizia. Olhou para sua irm. - Ol, Lina. Pensou que eram ladres? - depois olhou de novo para Pat. - Traga-o amanh, eh? Tenho que 
fazer uma reviso geral nele.
     - Quer dizer que se no ficar hoje sem carro, ficarei amanh?
     - E por que h de ficar? - retrucou Pablo rindo.
     "Cus!, pensou Pat, que tipo de homem  este? Que afinidade tem com o outro que eu conhecia at h pouco?"
     - No ficar sem carro - dizia Pablo enquanto isso. - Tenho doze automveis de aluguel iguaizinhos a este e amanh lhe empresto um at que o seu fique pronto. 
Combinado?
     - Oh, no posso aceitar - disse Pat sem graa. - S se me alugar.
     - Negativo - murmurou Pablo energicamente. - No se fala em aluguel com amigos. No quero nem falar nisto.
     - Mas...
     - No insista - riu Lina com suavidade. - Quando Pablo diz uma coisa,  preciso ceder, pois ele  teimoso como uma mula e muito amigo de seus amigos - olhou 
para a jovem. - Vamos subir e tomar um caf? Alberto e Csar esto vendo ao jogo pela televiso e eu ia justamente levar um cafezinho para Alberto, quando ouvi o 
rudo do motor.
     - Aceita? - perguntou Pablo.
     - Bem... no quero incomodar sua irm.
     Lina protestou:
     - Venha comigo, Pat. E voc, Pablo, v tirar o macaco e lave-se. Depois suba.
     Pat seguiu Lina. Parecia-lhe tudo desconcertante. Meia hora antes s sabia que Pablo era um tmido, um esquisito. Agora, conhecia-o falador, alegre; e ainda 
por cima, sua irm, uma mulher ainda jovem e bonita.
     Os dois chalezinhos, ambos de um s andar, eram separados por um jardinzinho. Pat reparou que o chal vazio estava tambm bem cuidado e tinha muitas plantas 
no terrao.
     Lina explicou-lhe:
     - Pablo cuida das plantas todos os dias. Fez a casa para morar sozinho, mas nunca se acostumou, nem eu queria. Ficou decidido que morar l quando se casar 
- riu. - S que ainda no arranjou uma noiva.
     Como arranjar uma?
     Do jeito que era, como o conheceu, no conseguiria nada com mulher alguma.
     Mas, deixou de pensar nisso e entrou na casa com Lina. Era acolhedora, confortvel e bem arrumada. Lina chamou:
     - Alberto, deixe um pouco o futebol e deixe-me apresentar-lhe uma amiga de Pablo.
     Alberto apareceu. Era um homem de uns quarenta e poucos anos, simptico, distinto; logo atrs, veio um menino de oito anos, alto e magro, com ar risonho.
     Lina apresentou-os e Alberto acompanhou-as no cafezinho. Pablo tambm, j vestido, como estava, mas o cabelo ainda molhado.
     Seu sorriso era amplo e acolhedor.
     Pat tornou a levantar uma sobrancelha. Aquele tipo em seu ambiente era o oposto ao que ela conhecia na cafeteria, ou nas discotecas...
     Por que seria?
     
     CAPTULO 4
     No regresso  cafeteria, Pablo ia lhe explicando:
     - Voc, amanh, dirija com cuidado. Nada de correr. Est recm lubrificado e de leo novo - havia anoitecido, enquanto isto. - E  noite, venha e traga o carro 
aqui.
     - Voc vai estar?
     - Eu? Claro. Sou o primeiro a chegar e o ltimo a sair. Se no se pode estar presente aos negcios que se tem, ento  melhor deix-los.
     - Ento, durante a semana voc no v seus amigos..
     - Uma vez ou outra. s sextas, por exemplo - comeou a rir. - Realmente, ns seres humanos somos meio parecidos com os animais.  certa hora das sextas feiras, 
comea a sentir uma coisa, e tenho que largar o trabalho, tomar um banho e sair para a cidade. A no ser que eu tenha um compromisso muito importante que me impea. 
E aos sbados, como voc sabe, estou sempre com Jaime e Daniel.
     Pat, que era muito franca, perguntou de repente:
     - Pablo, por que  to calado na cidade e to natural aqui?
     Pablo emudeceu. Ficou vermelho como um pimento.
     - Estou pensando nisso desde que deixamos a cafeteria.  realmente curioso. Eu o tinha por um tipo muito chato. Ontem mesmo, me fez passar uma noite terrvel.
     Ele corou ainda mais.
     - Por que est dizendo isso?
     - Bem, quando se est com um amigo, o normal  que se converse sobre qualquer assunto. E voc, mal responde ao que lhe perguntam. Sabe que o chamamos "o mudo"?
     - Oh...
     - Por que  to diferente?
     Pablo contemplou o volante e murmurou, devagar:
     - No sei ser de outra maneira, Pat. No valho nada para dizer frases espirituosas, nem sei me desenvolver bem entre outras pessoas. Acho que sou um tmido. 
Agora quando estou no meu ambiente, principalmente entre carros e motores, torno-me diferente, eu sei. Isso me ocorre sempre. O fato  que quando estou com um cara 
como Jaime, por exemplo, que diz tantas coisas que agradam s mulheres, fico perdido, com medo de abrir a boca e dizer uma besteira - fez um gesto vago. - Ento, 
me chamam de mudo...
     - Bem, conhecemos voc na montanha, esquiando. Mal olhou para ns, e praticamente no disse uma palavra. Est sempre calado, fumando; e ouvindo...
     -  um defeito que tenho, bem sei.
     - No, no  isso. Pergunto-me por que, sendo to loquaz agora, no o  quando em grupo.
     Ele tornou a olhar coibido para o volante.
     - Deve ser o carro.
     - Mas, o que tem a ver o carro com suas palavras?
     - No sei. Mas aposto que quando chegarmos  cafeteria estarei mais mudo que uma porta - fez uma pausa. - No pense que me chateia que me chamem assim... Sei 
que o sou. No posso, por mais que me esforce, ser igual a Jaime ou Daniel.
     - Bem - disse Pat desdenhosa, - Daniel ainda  discreto, mas Jaime  um exibido.
     Pablo a olhou espantado.
     - Como? Jaime lhe parece um exibido?
     - Claro. Um pedante, um fanfarro. No diz mais que tolices. Serve para distrair, nada mais.
     - Pensei que vocs todas gostavam dele.
     - Eu, no. No queria Jaime nem coberto de ouro. A vida ao lado de um homem assim deve ser intragvel.
     - Eu pensei...
     - Pois pensou mal - cortou-o irritada. - At agora, no gostei de nenhum homem para me ligar seriamente; para passar o tempo, qualquer um serve, mas para compromisso, 
 outra coisa. Jaime no me serve nem para matar o tempo.
     - As moas em geral gostam dele.
     -  o que ele pensa, como um presunoso que .
     O carro entrava na cidade e Pat olhou para Pablo, que ficou subitamente silencioso.
     - A cidade j comeou a inibi-lo, Pablo?
     - Minha timidez a diverte, verdade?
     - No - disse e sua voz era grave. - O que me agrada  t-lo conhecido tal qual .
     - E como acha que sou?
     - Um rapaz excelente, familiar, trabalhador, srio - de sbito, perguntou: - No tem namorada?
     - Eu? - parecia espantado. - E como poderia ter, Pat, se mal abro a boca quando estou junto a uma garota?
     - Ora, voc s fica mudo quando est numa cafeteria, ou numa discoteca. Pois ento, leve-a para passear de carro, que  o seu elemento, e solte tudo o que tem 
de bom a dizer.
     Pablo ficou subitamente triste.
     - No saberia, Pat. Estaria amando uma mulher com toda minha alma, e no saberia o que dizer-lhe.
     - No me confessou sua timidez? Eu pensei que era antiptico, e at mal educado. Nunca pensei que fosse tmido.
     - S que quando lhe falei, no a fitei.
     - Pois agora que o conheo, gosto de sua timidez. No suporto  gente como Jaime, que fala pelos cotovelos e banca o espirituoso. Se no fosse por Luisa e Irene, 
que gostam das besteiras de Jaime, eu nem o olharia.
     Pablo disse, num arranque como poucos:
     - Bem que eu gostaria de me apaixonar e me casar. Estou farto de andar por a, de lidar com prostitutas.
     - Oh... Mas voc sai com essas? 
     - E o que quer que eu faa? 
     Pat emudeceu.
     - Aposto que seu amigo Jaime d um jeito de conseguir tudo de graa.
     - No precisa apostar,  o que ele faz. Eu, para chegar perto de uma garota, sofro horrores - apertou as mos no volante, aumentando o assombro de Pat. - Tenho 
idade para casar-me e dinheiro para manter a famlia, mas do jeito que eu sou, vou acabar solteiro o resto da vida.
     - Pois ento - murmurou Pat divertida - procure uma que se declare a voc, facilitando-lhe as coisas.
     - No ria, a coisa  sria.  de uma assim que preciso. E se no se declarar, pelo menos que me anime a faz-lo... Nem que seja gaguejando.
     O carro se detinha e os dois desciam cada um de seu lado.
     - J sabe o que lhe disse - aconselhou-a entregando-lhe a chave e vestindo a suter de gola, - ande amanh com cuidado e ao anoitecer, quando voltar, leve-o 
a minha oficina. Estarei a sua espera.
     - No quero abusar de voc, Pablo.
     - No diga isso. Agora que j conversei com voc,  como se fssemos velhos amigos. Tem namorado?
     - No.
     Continuaram caminhando lentamente.
     - Pat, queria lhe pedir um favor. No diga a suas amigas que sou to tmido. Prefiro que me chamem de mudo. Essa minha timidez me d muitos complexos.
     Como resposta, Pat apoiou as duas mos em seu brao, o que fez Pablo estremecer dos ps  cabea. Era a primeira vez em sua vida que uma mulher lhe dava o brao 
espontaneamente.
     - Em primeiro lugar, no sou fofoqueira. Em segundo, no acho graa em sua timidez. E em terceiro, no tenho tanta intimidade com minhas amigas para contar-lhes 
tudo o que vivo.
     Entraram na cafeteria e, como sempre Pablo pediu um usque e comeou a beb-lo, enquanto Pat se sentava junto s amigas.
     Mais tarde, quando as moas se levantaram para ir-se, Jaime se ofereceu para acompanh-las mas Pat disse que tinha pressa e se foi sozinha.
     Pablo continuou tomando a sua bebida.
     O que pensaria de sua timidez aquela garota; que o havia conhecido mais intimamente?
     A garota em questo contava tudo a sua tia.
     
     CAPTULO 5
     - Fiquei comovida, tia Lcia - dizia Pat, sentada  mesa da cozinha. -  to tmido, que fica vermelho s em confess-lo.
     - Nunca me havia falado nele - exclamou Lcia.
     Pat fez um gesto vago.
     - A verdade  que nunca o havia "visto". Quer dizer, via-o mas de uma maneira diferente.
     - Mas j me havia falado no tal Jaime e no Daniel. No simpatizava com Daniel?
     - Foi algo passageiro - confessou Pat pensativa. - Seu tipo  atraente. Mas Jaime, fisicamente falando,  mais bonito, at. S que no o suporto. S sabe dizer 
bobagens, e se voc falar em coisa sria, profunda, no sabe o que dizer. Um autntico palhao.
     - E o tal Pablo... o que lhe parece agora?
     - Um timo rapaz, mas mais tmido que uma criana e do tempo antigo.  preciso provoc-lo, ou dar-lhe um volante para que se abra. Sabe, tia? Ele me comoveu.
     - , voc j me disse.
     - Fiquei maravilhada com ele.
     - Isso no me havia dito.
     - Sua timidez me perturbou. Deixou-me sem jeito. Homens tmidos, hoje, em meu ambiente, no conheo. Esse rapaz vai sofrer.
     - Por qu?
     - Porque um dia se apaixonar e vai comer o po que o diabo amassou, para conquistar a mulher amada.
     - As mulheres no gostam de homens tmidos.
     - Certamente, mas tampouco de exibidos como Jaime.
     E como continuou falando o tempo todo do mesmo Lcia a olhou com curiosidade, dizendo de sbito:
     - Escute... gostou tanto desse rapaz tmido?
     Pat pestanejou.
     - Pelo menos, dos trs, prefiro-o. Comigo no  to tmido. Diz que se sente  vontade comigo.
     - Se ele se apaixonar por voc...
     - No diga bobagens, tia.
     - Imagine-o.
     Pat no queria imagin-lo. Pelo que fosse, aquela idia a perturbava.
     Assim, deixou de falar dele e procurou outro assunto, at que se despediu da sua tia e foi para a cama.
     Sua tia, um tanto antiquada, um dia a viu deitada, nua, e ficou horrorizada.
     - Mas, menina, voc dorme sem roupa?
     - O que tem isso, tia?
     Aquela noite, como tantas outras, Pat tomou um banho, vestiu o roupo felpudo e tirou-o j na cama. Deitou-se e cobriu-se apenas com um lenol, pois fazia calor.
     Fechou os olhos e comeou a pensar em Pablo.
     Um rapaz formidvel. Discreto, simptico, com uma situao econmica invejvel, alm de ser de boa famlia e educado.
     Teria que encontrar na vida uma mulher que o compreendesse e o ajudasse a declarar o seu amor, pois do contrrio, acabaria solteiro o resto de sua vida, e o 
curioso  que algo lhe dizia que Pablo daria um timo marido, um excelente pai.
     Pensou em si mesma tambm. Estava com vinte e trs anos e nunca se interessou realmente por ningum.  claro, teve alguns namorados, desde os quinze anos. J 
tinha sido beijada, naturalmente. Mas, nenhum dos rapazes com quem namorou a deixou impressionada. At os beijos nada significaram para ela.
     Aos vinte anos, teve seu ltimo namorado. Desde ento, no quis mais se prender a ningum, pois ningum lhe despertava um sentimento profundo.
     Flertes passageiros, amigos, colegas de trabalho que lhe faziam a corte discreta, mas ela vivia bem, ganhava um bom ordenado e podia comprar tudo o que gostava, 
inclusive o carro com que andava de um lado para a outro; uma tia cinqentona que a adorava e com a qual vivia em paz.
     Relaxou-se no leito e tratou de dormir, acordando no dia seguinte sem se lembrar mais do que tinha pensado  noite.
     Anoitecia j, quando deteve o carro diante da oficina de Pablo.
     Os empregados j haviam ido e s havia uma luz que assomava por uma janela.
     Ela chamou:
     - Pablo, est a?
     Pablo apareceu em seguida, como se estivesse a sua espera.
     - Ol, Pat, chegue aqui. Estava vendo uns livros - no vestia o macaco branco, usava uma cala azul claro, e uma camisa branca, que realava sua pele morena. 
- Na realidade a esperava. Que tal se portou o carrinho?
     - Um pouco vacilante, mas me trouxe at aqui.
     - Est com o carburador sujo, e o que  pior, com essa gasolina que nos servem, metade gua e metade gasolina, se mistura com o leo e faz o diabo. Bem, esquea-o. 
Veja este azul escuro, pode ficar com ele at eu arrumar o seu.
     Falava depressa. Havia acendido a luz da garagem, e seu rosto era perfeitamente visvel.
     - Olhe, Pablo - dizia Pat, algo sem jeito, - no sabe a vergonha que sinto ao levar seu carro sem pagar aluguel.
     - No me ofenda, Pat. No seja boba. Os amigos so para estas ocasies, no?
     E se apoiava no carro, com os braos cruzados sobre o peito e olhando Pat com simpatia. Tinha olhos negros e expresso profunda.
     - Tem muita pressa? - perguntou depois sem que Pat respondesse.
     - No muita.
     - Se quiser tomar um refresco na casa de minha irm...
     - No, no, obrigada.
     - O que vai fazer agora?
     - Ir para casa, que coisa quer que eu faa?
     Pablo deu alguns passos at ela. Pat, com sua saia branca e blusa azul parecia mais jovem, mais esguia.
     - De saia, parece mais delgada - comentou ele.
     -  possvel.
     - De modo que no quer tomar nada na casa de Lina.
     - No, Pablo, obrigada. Tenho mesmo que ir andando. No sabe o quanto estou aturdida com sua generosidade.
     Inesperadamente Pablo descruzou os braos e deslizou uma mo pelo brao da jovem.
     - Pat, a seu lado me sinto bem. Deve me achar um tolo.
     Pat pestanejou. A escurido.
     A proximidade de Pablo, sua voz rouca e agradvel ao mesmo tempo, a intimidade do lugar..., tudo contribuiu para perturbar um pouco Pat, e ela no era fcil 
de se perturbar.
     No olhou para os dedos que seguravam seu brao, olhou para Pablo nos olhos. Ele murmurou em voz baixa:
     - Outros j a beijaram, verdade?
     - Sim.
     - Muitos?
     - Alguns.
     - Jaime?
     E a voz masculina tinha uma estranha vibrao de ira mal contida.
     Pat se sobressaltou quase gritando:
     - Jaime? Claro que no. Me daria nuseas.
     Viu-o respirar melhor.
     Mas no lhe soltou o brao e foi assim,  toa, vendo-o cerrar os olhos, que aproximou o rosto ao dela e com sumo cuidado roou-lhe a boca com a sua.
     Imediatamente a soltou e girou sobre si.
     - Desculpe - disse de modo raro. - Sou um imbecil.
     Pat no disse uma palavra.
     Sentia-se estranhssima. Como se os ps lhe formigassem, e os pulsos latejassem. Em silncio, foi andando para o carro azul e ouviu a voz rouca de Pablo, dizendo:
     - A chave est dentro.
     - Obrigada..., obrigada... Pablo. 
     E, entrando no carro, saiu a toda pressa daquele local que tanto a perturbava.
     No tornou a v-lo at o sbado seguinte.
     Ia com suas amigas  cafeteria e quando o viu, como sempre apoiado no balco e com um copo de usque na mo, ficou algo indecisa.
     Havia pensado nele.
     No podia negar aquela evidncia.
     Outros homens haviam-na beijado, e no entanto, s com o roar dos lbios dele, sentira aquela sensao estranha, coisa que mexera com sua sensibilidade.
     Ali estava Jaime dizendo tolices, fazendo gracinhas sem graa. E Daniel, ouvindo-o e olhando-as. Irene, rindo feliz e Luisa abobalhada olhando o tolo do Jaime, 
mas ela s via Pablo.
     Mudo, absorto, antiptico?
     Isso diria quem no o conhecesse direito.
     Ningum lhe fazia caso, como sempre. As garotas passavam a seu lado, fitavam-no provocantes, mas Pablo parecia nada ver, e as moas pensavam que aquele sujeito 
to interessante era um boboca, desistindo de conquist-lo.
     S ela sabia que Pablo nada tinha de boboca. Era um cara fino e sensvel, bom, sentimental. Um complexado com inveja da facilidade de Jaime atrair garotas...
     Ela saudou em geral, mas se acercou a Pablo e se acomodou ao seu lado no balco.
     - No me procurou, Pablo - disse procurando no fit-lo nos olhos, pois no tinha coragem.
     - No me deixou seu telefone - disse ele  meia voz. - Mas de qualquer jeito o carro s fica pronto amanh. Pode ir busc-lo. Tive que regul-lo todo. Estava 
desajustado, mudei o filtro e limpei o carburador trocando algumas peas. Tive que esperar que a Seat as mandasse. Sabe como funciona tudo isto.
     - Sim, claro.
     
     CAPTULO 6
     Julgou que Pablo daria mais explicaes sobre o carro ou o que fosse. Mas no. Ficou silencioso e absorto.
     Quando  noite contou  tia Lcia, esta comentou:
     -  bobo ou as pessoas o amedrontam?
     - Sei l. Tentei de todas as maneiras que falasse, que mantivesse uma conversa. No foi capaz. A no ser falar de carros, diante das pessoas no fala de outra 
coisa ou fica calado.
     - Mas quando est com voc, sozinhos, expressa-se muito bem, verdade?
     - Fala de tudo.
     - Pat, h alguma coisa entre voc e esse jovem?
     - No  to jovem, tia. Tem trinta anos.
     - Bem, que seja. Pergunto-lhe se a atrai, pois nunca a vi falar tanto de uma pessoa.
     - Umas vezes me desconcerta - confessou Pat, - e outras me perturba.
     - Pois eu acho que est muito interessada nele.
     -  possvel.
     E ficou pensativa.
     Quando foi se deitar, lembrou que Pablo dissera "no dia seguinte", mas provavelmente esquecera que seria domingo.
     Bem, ela o apanharia na segunda. Ento lhe perguntaria quanto lhe devia. Tentaria pagar o aluguel do carro e depois, convenceria suas amigas a freqentarem 
outra cafeteria, para no tornar a v-lo.
     Na manh seguinte, Luisa lhe telefonou.
     - Escute, Jaime e os outros nos convidam para passar o dia na praia, o que acha?
     No iria.
     Muito lhe espantava que Pablo, constrangido como ficava no grupo, aceitasse participar dele.
     - Quem vai? - perguntou.
     - Os seis.
     - Pablo Salinas tambm? 
     Luisa deu uma risada.
     - Claro, eu acho. Ele  a sombra de Jaime. Bem, Jaime me disse que iriam "todos", mas no especificou.
     Ela procurou mentalmente um pretexto.
     No queria assistir o sofrimento de Pablo, lutando com sua timidez, nem ouvir as palhaadas de Jaime o dia todo.
     - Bem, Luisa, no vou poder ir.
     - Oh, por qu?
     - Como sabe, estou com um carro da oficina de Pablo. No quero me meter na praia com um carro que no  meu.
     - Iremos todos no de Jaime. 
     Piorou.
     - Prefiro ir  praia aqui perto mesmo.
     - No seja do contra, voc sempre sai conosco. E aposto como o boboca do Pablo nem vai reparar que o carro  dele. 
     Deu-lhe raiva.
     "Boboca do Pablo".
     No o era. Podia ser um homem reprimido, complexado pelo que fosse, mas um "boboca"  que no era.
     Exclamou apenas:
     - De todo modo, ficarei. Passarei mais tarde pela cafeteria, para ver se os encontro. 
     - E o que vai fazer sozinha o dia inteiro, num dia de sol como este?
     - Talvez d um pulo na praia daqui.
     Luisa ainda insistiu, mas ela no cedeu. Resolveu ir sozinha mesmo  praia mais prxima.
     Sua tia lhe perguntou, j na porta:
     - No vir almoar, verdade?
     - Virei.
     - Ah, no vai com suas amigas, como das outras vezes?
     - No. Desta vez irei sozinha. Chegarei s duas e meia, trs horas.
     Sentia-se deprimida e sensibilizada e no sabia por qu. Por isso preferia a solido. Assim que chegou  praia, estendeu a toalha na areia e olhou em torno 
distrada.
     A praia estava repleta de gente.
     Tirou a sada e a guardou na bolsa, depois, recolhendo o cabelo na nuca, deitou-se de bruos.
     Estava irritada, nervosa e no achava motivo para tal. Luisa cansava-a, com sua conversa tola, Irene, sempre falando de crianas levadas e malcriadas, e Jaime 
com suas tiradas de homem mimado, convencido, um cretino completo.
     At Daniel, que antes lhe agradava, agora lhe parecia to ridculo e mimado quanto Jaime.
     Depois, como o sol j lhe aquecera demais as costas, virou-se de rosto para cima e como a claridade a incomodava, deixou suas coisas com uma senhora vizinha 
e foi nadar.
     Pensou no que faria Pablo todo um dia com aqueles quatro.
     Nada.
     Com certeza fumar sem parar, sentado em qualquer pedra, sentindo a brisa do mar, se bronzeando ainda mais, e Jaime no grupo, rindo de qualquer coisa.
     s trs da tarde regressou a casa mal humorada e descontente consigo mesma, mas sem saber as causas que a deixavam assim inquieta.
     A tia, que j estava pronta para sair, entrou em seu quarto e ficou recostada no marco da porta.
     - Pat - disse-lhe, - voc anda muito estranha.
     Pat, que estava lendo Vargas Llosa, marcou a pgina do livro e olhou para sua tia.
     - Est muito bonita - disse para distrair sua parenta. - Parece que est  caa de um marido.
     - No seja tola, menina.
     - Apaixonada, tia?
     - Pat, vou me zangar com voc.
     - Desculpe.
     E tentou voltar a ler. Mas tia Lcia continuou ali.
     - Eu disse que voc anda muito estranha.
     - Por qu?
     - No a entendo. Muda de humor com tanta rapidez. Antes, no era assim. 
     Pat s queria que sua tia se fosse.
     - Pat, quer que eu fique em casa com voc?
     - Para qu?
     - Como est assim...
     - Assim, como?
     - Estranha. Eu diria que est apaixonada.
     Pat comeou a rir alto, mas depois foi deixando de rir paulatinamente. Ela, apaixonada? Que bobagem. Nunca se apaixonou por ningum.
     - Garanto-lhe - disse risonha - que serei uma beata como voc. S imagino a cara do padre, quando lhe contar meus maus pensamentos e tentaes. 
     - Pat!
     - Desculpe. A ofendi?
     - Muito. Sabe que no gosto de certas brincadeiras.
     Sem saber como, viu-se pensando em Pablo.
     Pablo outra vez! Adorvel tmido!
     Invejava Jaime...
     Evocou aquele roar em seus lbios e que a deixou to emocionada, mais do que um beijo passional a deixaria.
     Pensou tambm na pergunta vibrante de Pablo:
     "Jaime a beijou?"
     O que lhe importava, se a beijara esse ou aquele?
     Mas, pressentia que importava-lhe, e muito.
     Jaime era tudo o que ele gostaria de ser, e Pablo no se dava conta, nem se daria nunca, que ela jamais perderia um minuto de seu tempo pensando em Jaime
     Pensava em Pablo, isto sim.
     Por mais que quisesse evit-lo, no podia deixar de pensar.
     - Divirta-se, tia.
     - Manda-me embora...
     - Desejo-lhe uma boa tarde.
     - No pode ser boa, sabendo que voc ficou em casa.
     - Ora, quanto a isso, v tranqila. Quando me cansar de ler, visto-me e saio.
     - De uns dias para c, anda muito parada, Pat. No posso saber a que se deve isso?
     - Se eu soubesse, garanto que lhe diria.
     Lcia acabou indo e Pat se dedicou a Llosa com toda sua vontade, mas logo largou o livro, se encolheu e fechou os olhos.
     Estava bom ali.
     O sol entrava aquecendo o quarto, banhando-lhe o corpo ainda de mai.
     
     CAPTULO 7
     Alberto e seu filho Csar haviam ido  praia at a hora do almoo.
     Lina arrumou a cozinha, mas depois recordou que seu irmo no havia tomado caf.
     Foi a seu quarto e bateu  porta.
     - Entre, Lina - disse a voz sossegada de Pablo.
     Lina entrou e o viu deitado, lendo o jornal.
     - Mas, eu pensei que voc tinha sado. No lhe telefonaram esta manh?
     - No fui.
     - Aonde foram seus amigos?
     -  praia.
     - Quem lhe trouxe o jornal? - perguntou Lina assombrada.
     - Peguei-o embaixo da porta quando atendi o telefone.
     Lina se acercou mais, sentando-se a borda da cama.
     - Por que no foi, Pablo?
     - Eles me cansam.
     - Tambm a jovem que veio aqui outro dia?
     Pablo corou.
     - Essa no. Mas para v-la no meio dos outros, rindo das besteiras de Jaime, no quero.
     - Voc sempre admirou Jaime.
     - Diga a verdade, Lina - murmurou em tom cansado. - No o admirei, invejei-o, o que  diferente.
     - Mas, Pablo...
     - O que quer que eu faa? Jaime age, diz, move-se da forma, como eu gostaria de me mover, de agir, de dizer e fazer. No posso remedi-lo.
     Lina juntou as mos sob o queixo e contemplou Pablo com certa desolao.
     - Jaime  um imbecil, de modo que de pouco ia lhe servir ser igual a ele.
     - Foi o que ela disse.
     - Ela?
     - Pat.
     - Ah... 
     Um silncio. Depois...
     - Pablo, ela... lhe agrada muito, verdade?
     - Me agradava mesmo antes de conversar com ela - disse Pablo desolado. - Imagine agora, que a conheo melhor.
     - E no foi  praia com eles para no v-la rir das tolices de Jaime.
     - Por isso.
     - Mas voc mesmo disse que ela considera Jaime um imbecil.
     - Ela o diz...
     - E por que no h de ser verdade?
     - Ser que ?
     - Oh, Pablo, como posso saber. Isso quem deve saber  voc. Mas, diga-me... querido, diga-me... Ser que se apaixonou por essa jovem?
     - No sei. Mas tenho pensado muito nela e quando a vejo na minha frente, fico desnorteado. No sei nem olh-la - apertou a cabea com as mos. - Lina, sou um 
idiota, um infeliz. Veja quantas coisas alcancei na vida, e, no entanto, a deciso para o amor e a convivncia humana com o sexo oposto, faltam-me. O que posso fazer?
     - Vencer essa angstia. Que defeitos julga que tem, para sentir esse complexo?
     - Eu mesmo no sei. S sei que quando estou no meio das pessoas, sinto um n na garganta que no me deixa falar, e se abro a boca, temo dizer besteira. Entende?
     - No. Vi voc falar com Pat, quando ela veio aqui.
     - Aqui!
     - Ser que l fora, na cafeteria, por exemplo, no consegue falar?
     - No.
     - Mas, Pablo...
     - J sei, j sei - desesperou-se, - j sei... Pois no posso, entende?
     - Mas voc est apaixonado por ela.
     - No sei. Se  amor, se  desejo, se  o diabo. O caso  que penso nela e imagino um mundo de coisas para dizer-lhe, e quando chego a seu lado, ou falo de 
automveis, ou me calo como um morto.
     Lina de repente, lhe disse:
     - Por que no vai a um psiquiatra?
     - O que disse?
     - Talvez ele o ajudasse a vencer essa timidez.
     - Isso nem Deus d jeito.  uma espcie de maldio. Acho que sou assim desde pequeno. Sabia sempre as lies. Jaime nunca sabia nada, mas sempre dava um jeito 
e acabava tirando notas melhores que eu. Entende isso?
     - Mais ou menos. Deixe o grupo de Jaime e procure amigos diferentes.
     - Nada disso. Apesar do muito que o invejo, aprecio Jaime,  um bom amigo, que nunca foi falso comigo. Quanto a procurar novos amigos, seria muito difcil para 
mim.
     Lina se levantou e foi at ele, passando-lhe a mo pela cabea.
     - Devia ter ido com eles. Pablo, o que vai fazer o domingo inteiro, sozinho?
     - Por ora, levantar-me. Tomar uma ducha gelada, que me faz bem. Ir  oficina e arrumar o carro de Pat...
     - Ela vem busc-lo?
     - Amanh...
     - Acredita - disse Lina ainda - que agora est com eles na praia.
     - Claro.
     - E isso o deixa transtornado - Pablo alisou maquinalmente os cabelos.
     - No se preocupe tanto comigo, Lina. Creio que j lhe dei muitas dores de cabea.
     - No diga isso. Se vamos olhar as coisas como realmente so, tanto Alberto como eu lhe somos gratos. Vivemos com todo o conforto, graas a voc. Podemos dar 
um bom estudo a nosso filho, graas ao seu trabalho e a ajuda que d a Alberto.
     - Como pode dizer isso? Alberto  um homem que se vale sozinho, e se algum tem que estar agradecido, sou eu.
     - Com o salrio de Alberto no banco, pouco poderamos fazer. Graas a voc, Pablo querido, temos uma casa confortvel, cheia de comodidades, televiso a cor, 
viagens todos os anos pela Espanha, aproveitando as frias de Alberto, e um carro maravilhoso...
     - Quer calar essa boca?
     Lina quase chorava. Ela daria tudo o que tinha para ver Pablo feliz.
     - No sofra por mim, Lina - sorriu-lhe ele. - Ver como isso passa. Esquecerei essa moa.
     Lina recolheu o jornal que estava agora no cho. 
     - Esquecer uma paixo  coisa difcil, Pablo. Por que no toma coragem e no se declara?
     Pablo quase empalideceu. Suava frio.
     - Declarar-me... ? - balbuciou.
     - Diga-lhe que a ama. Tem tantos mritos para ser amado tambm...
     - As moas de agora no amam quem tem mritos. Querem o moo bonito, rico, alegre. Posso ter dinheiro, mas no sou simptico, nem alegre.
     E ria, cheio de amargura. Lina se indignou:
     - Chega de tantos complexos. Por qu, Pablo? Quem lhe meteu esses complexos?
     - Sei l. Nem sei se os tenho. Mas me lembro da raiva que tinha quando amos ao colgio, crianas ainda, e todos os coleguinhas falavam de seus pais que eram 
mdicos, advogados, engenheiros... Que sei eu daqueles tempos! S sei que meu pai tinha uma oficina de conserto de bicicletas e era um pobre trabalhador e nada mais, 
e eu mordia a lngua porque no podia dizer o mesmo que eles.
     - Mas era para sentir-se orgulhoso do que  hoje. Um homem rico, quase poderoso.
     - No, no, Lina. Passado nada tem que ver com o presente. Se tenho complexos lhe garanto que no nasceram ontem nem anteontem, e sim h pelos menos vinte anos, 
quando eu tinha dez e Jaime, o prprio Jaime, por exemplo, dizia aos gritos que seu pai era qumico. Eu nem sabia o que isso significava, mas imaginava que era muito, 
e assim me encolhia todo.
     - Mas, Pablo...
     - J sei o que me vai dizer. Que Jaime  hoje um joo-ningum numa empresa, que depende de um horrio e um chefe e tudo o que quiser. Pode at acrescentar que 
seu salrio  uma droga. E da? Eu o vejo ainda de cala curta, de meia soquete, dizendo que seu pai era qumico, enquanto eu tinha que dizer que o meu era mecnico 
de bicicleta. Tive que diz-lo, pois um dia, um garoto o descobriu e os outros zombaram de mim. No me olhe assim, Lina. Eu adorava meu pai e graas a ele e a seus 
esforos, sou o que sou; mas quando se  criana, v-se as coisas de outra maneira. Eu penso que meus complexos datam de ento e por mais que tente arranc-los de 
mim, no o consigo. Foi uma poca terrvel, a de minha infncia. Dentro de mil inocncias, criam-se climas de verdadeira tenso e desconcerto.
     - Afastamo-nos da questo. - disse Lina, querendo ignorar a infncia de seu irmo.
     Pablo sacudiu a cabea.
     - No quero voltar a ela.
     - No?
     - Se  para falar de Pat, no.
     - Mas voc a ama.
     - Amo-a realmente?
     - Sofre, pelo menos, ao imagin-la na praia com seus amigos, com Jaime, principalmente.
     -  que ela  a mais bonita de todas e aposto como Jaime est dando em cima. Deve estar louco por ela.
     - Considera-o capaz de ficar louco por uma mulher?
     - Tanto quanto Jaime pode ficar, sim, por Pat.
     - E acha que, colocados os dois na balana... ela preferir Jaime a voc.
     Pablo crispou o rosto.
     - Garanto que sim - grunhiu. - Portanto, esquea o assunto, Lina.
     E, inclinando-se para a irm, beijou-a no rosto.
     - Devo-lhe muito, Lina. Acho que no vou me casar s para no deixar de v-la a cada instante.
     - Pois eu acho que deve casar-se o quanto antes. Por que no fala com Pat?
     - Quer esquecer que Pat existe...?
     
     
     CAPITULO 8
     Eram quase as oito, quando cansada de esperar que a chamassem, saltou do leito, deixou Llosa sobre a mesinha de noite e foi tomar um banho e vestir-se.
     "Que vai fazer, Pat?", se perguntou.
     Ir at a cafeteria, como sempre. Era a mais procurada pela juventude. Algum conhecido ela encontraria ali.
     A cidade no era muito grande e seus habitantes podiam contar-se entre os duzentos e poucos mil, de modo que dada a sua profisso e o mundo de gente que conhecia, 
a algum encontraria naquela tarde de solido.
     O sol ainda aquecia.
     Nessa poca, oito horas da noite ainda era claro. E Pat saiu  rua a p, j que a cafeteria no ficava longe.
     Provavelmente, os que haviam ido  praia s chegariam l pelas dez horas, e como no dia seguinte era segunda-feira, no se demorariam muito.
     Melhor.
     Assim teria tempo de meditar e tomar um cuba-libre, sentada sozinha diante do balco.
     Foi quando chegou.
     Viu-o em seguida.
     Ficou algo hesitante no umbral.
     No era possvel. Suas amigas no sairiam de casa sem cham-la. Pablo tambm a viu e ela notou seu desconcerto.
     Caminhou em sua direo. 
     - Mas... como j est aqui? - perguntou ela.
     Pablo sorriu simplesmente.
     - Por que no estaria aqui?
     - Pensei que tinha ido a praia.
     - Tambm pensei que voc iria. 
     Evitava olh-la.
     Pat decidiu for-lo a uma conversa, fosse sobre qualquer coisa, desde que evitasse aqueles silncios confusos.
     - Fui  praia, mas sozinha e a uma pertinho daqui - recostou-se no balco e o fitou. - O sol estava to quente, que no dava para agentar muito tempo. Alm 
do mais, havia gente feito formiga e isso no me agrada.
     Pablo fumava. Mantinha o cigarro entre os dedos e o levava  boca depressa demais. Notava-se que estava nervoso, excitado.
     Ela notou que Pablo estava mais calado e pensativo do que nunca e ficou pensando se de fato algum dia ele conversara com ela, com naturalidade, ou se aquele 
domingo, na oficina, fora um sonho.
     Aquele beijo que Pablo lhe roubara, no era coisa de um tmido. No, no podia esquec-lo. Era algo que a havia perturbado, sensibilizado, despertado nela coisas 
que jamais pensara existir.
     - O que toma? - perguntou ele, sem fit-la.
     - Um cuba-libre - e de repente, acrescentou: - Escute, no se cansa, sempre aqui? Est uma noite linda. Podamos dar um passeio.
     Sozinho com ela?
     Sem carro? De que ia falar-lhe?
     Tampouco ia permitir que apenas ela falasse, pois isso, no fundo, era uma humilhao, e o pior  que no encontrava palavras para ser agradvel, ou mesmo correto.
     Passou o garom, e ele pediu-lhe um cuba-libre.
     - Voc sempre toma usque - disse Pat, a fim de romper seu mutismo.
     - Sim.
     - Por que no foi com seus amigos  praia?
     - No sei... Chamaram-me cedo, vi o jornal sob a porta e preferi l-lo na cama... Realmente, no sei porque no fui.
     - Eu sei por qu.
     - Sabe?
     - Sei porque eu no fui.
     - Ah.
     Mas no perguntou por qu. Um garom apareceu trazendo a bebida de Pat. A jovem tomou um gole da mesma.
     - Est meio forte - comentou. - Tem cigarros a?
     Ele ofereceu lhe o mao e ela tirou um. Em seguida, Pablo ofereceu-lhe fogo.
     Pablo contemplou aquela boca segurando o cigarro e estremeceu. Com o pensamento, fazia e dizia loucuras, mas na hora de diz-las e faz-las, no era de nada. 
E menos ainda com aquela jovem maravilhosa. Uma semana antes, era mais fcil dirigir-se a ela. Atraa-o, mas era diferente. Era algo fsico, apenas. Agora, havia 
algo mais profundo. No podia tir-la do pensamento um s instante. E sempre que pensava nela, ficava nervoso, excitado.
     Houve um silncio prolongado.
     Pat no sabia o que dizer para romp-lo. J no lhe restavam coisas que dizer, e a verdade  que ela tambm, fosse pelo que fosse, se sentia um pouco inibida 
junto a Pablo. Um Pablo silencioso que ao fit-la fugazmente, esboava um meio sorriso que parecia uma careta.
     Para ela Pablo sempre passou despercebido. Considerava-o um pobre diabo, esquisito, at mesmo incorreto, ouvindo sempre, como se estivesse na lua e jamais 
dizendo algo.
     Mas desde que o conheceu melhor, era diferente. Fitava-o e reconhecia que era um homem atraente. Alto, forte, de fsico atltico, a pele morena tostada, os 
olhos negros e expressivos.
     Mas o que mais contava para ela era aquela forma de ser tmida, sensvel e estranha de seu recente amigo, porque para dizer a verdade amigo no o havia sido 
at oito dias antes, quando com o volante na mo Pablo se tornou incrivelmente expressivo.
     Tomou o cuba-libre depressa, querendo que Pablo a convidasse para um passeio, antes que os outros chegassem.
     Por isso ficou de costas para o balco e procurou os olhos escuros de Pablo.
     - No se chateia aqui, entre tanta gente falando ao mesmo tempo? - sussurrou-lhe inclinada para ele, o que deixou Pablo agitado.
     Olhou em todas as direes.
     No queria estar sozinho com ela. Assustava-o a idia de ver-se com ela humilhado, com a boca cerrada sem saber como romper o silncio, e se ela o rompia, duplamente 
humilhado s sentiria.
     Assim, preferiu ficar ali e dominando seu desejo de tom-la nos braos e sair fugindo com ela, disse:
     - A mim no chateia essa gente falando. No reparo no que dizem.
     Pat deu-se por vencida.
     No havia forma de quebrar aquela timidez doentia de Pablo; assim, pensou que falando de carros, poderia ajud-lo. Atacou por aquele lado:
     - Amanh  noite levarei seu carro e pegarei o meu.
     - Est bem, estar pronto. Realmente - parecia animar-se um pouco - estava em pssimo estado.  preciso dar uma olhada no carro de vez em quando, pelo menos 
de dois em dois meses. O freio de mo nem sequer funcionava e os outros estavam quase secos. Assim surgem os acidentes, por falta de previso e de cuidado.
     Falando de carros conseguia arranc-lo um pouco de seu mutismo, o que para Pat j era algo.
     O perfume dela era gostoso, pensava Pablo, agitado.
     Estava levemente pintada e muito feminina com aquele modelo decotado. Pablo tentou encontrar palavras em sua mente para elogi-la e parecer  vontade, como 
fazia Jaime, mas no lhe foi possvel. Assim, bruscamente, levou o copo aos lbios.
     - Voc bebe muito usque, Pablo - comentou ela.
     O rapaz tirou um cigarro e o acendeu.
     - Nunca me embebedei - comentou por sua vez. - Jamais senti-me enjoado nem minha irm teve que dizer-me algo a esse respeito.
     Pat julgou ter achado novo motivo para conversa:
     - Gosta muito de sua irm, no?
     - Sim, muito...
     E, apagando um cigarro, acendeu logo outro.
     Pat viu que aquele no era o ambiente de Pablo. Para arrancar-lhe uma frase tinha que falar-lhe, ou de carros ou de sua irm, e isso no lhe era difcil, j 
que simpatizou muito com Lina.
     Anoitecia.
     As pessoas entravam e saam da cafeteria. Todos falavam ao mesmo tempo. O barulho era ensurdecedor.
     - Gostaria de ir danar - disse Pat de repente.
     Pablo se agitou.
     - No tem Jaime, que  um perfeito danarino?
     - J lhe disse a opinio que tenho dele.
     - Mas dana maravilhosamente.
     - J tentou danar, alguma vez? 
     No respondeu logo. Olhava o cigarro em seus dedos.
     - Bem, na verdade, no...
     - Quer experimentar? Podemos ir a uma discoteca...
     Viu-o pestanejar, empalidecer e depois dizer:
     - No... Prefiro ficar aqui, se no se importa.
     - Bebendo usque atrs de usque - disse ela, quase alterada.
     - Pat... voc sabe como sou. Sabe muito bem.
     Pat girou e decidiu ir sozinha a um cinema. Melhor ir embora do que estar com ele, sofrendo por sua causa.
     - J vou indo, Pablo. 
     Ele a olhou desolado.
     - J vai? - perguntou desapontado. - Ohhh!
     Mas no lhe pediu que ficasse e Pat, farta e quase ferida em seu amor prprio, se foi sem dizer-lhe adeus.
     Pablo, arrasado, pediu outro usque.
     Bebeu-o em poucos tragos.
     Sentia-se desesperado. No havia dvida, aquela garota lhe agradava, amava-a, desejava-a, mas quanta mais a amava e desejava, menos se atrevia a dizer-lhe palavra.
     
     
     CAPTULO 9
     No era das que enganavam a si mesmas.
     Por isso comeava a dar-se conta de que se interessava demais por Pablo.
     Comovia-a e perturbava aquele homem sensvel e bom, cheio de virtudes e de defeitos, ganhando as primeiras.
     No disse nada a sua tia. Nem mesmo que havia ido sozinha ao cinema.
     Dormiu mal e na manh seguinte foi para o trabalho mais cansada do que antes de deitar-se. Luisa telefonou para o escritrio e lhe contou mil aventuras que 
haviam vivido na praia, os quatro.
     Quando ela lhe perguntou como ia seu caso com Jaime, Luisa perdeu um pouco seu tom alegre.
     - Bem, voc sabe como ele . Uma pessoa adorvel, mas na hora do srio, no h o que fazer... Vive muito bem com a me, ganha pouco, mas o suficiente para quem 
vive na casa dos pais, sem despesas. Quanto a falar em casamento, impossvel. Jaime nunca se casar.  egosta demais.
     J o sabia. 
     Depois Irene a procurou. Tinha a mesma opinio de Luisa quanto a Jaime.
     - So timos os dois, alegres e divertidos, mas so egostas demais e como esto, vivem divinamente. Esses no se casam e para perder tempo, uma mulher no 
quer levar a vida toda. Esperar pelo impossvel,  loucura. No acha?
     Achava, claro.
     Trabalhou todo o dia como um autmato e ao entardecer, cedo ainda, entrou no carro emprestado por Pablo e decidiu apanhar o seu.
     Teve uma desiluso.
     Pablo no estava. Perguntou-se se no estava para evit-la, ou por casualidade. Mas, pensando bem, Pablo sabia que ela iria levar o carro e pegar o seu.
     Encontrou-se com Alberto, que andava por ali ajeitando uns arbustos do jardim. Csar, o menino, corria atrs de uma bola. Lina regava as plantas com uma mangueira.
     Ela freou e desceu do carro.
     Vestia cala branca de brim e um bluso de malha listrada, aberto do lado. Calava mocassins, tinha o cabelo solto, livre, macio. 
     - Boa tarde - saudou. 
     Olharam-na. Aberto, correto e amvel, soltou logo o que tinha na mo e foi ter com ela.
     - Ol Patrcia. Veio apanhar o carro, verdade?
     - Sim.
     Tambm Lina largou a mangueira e veio em sua direo. At Csar se aproximou.
     - Ol, Pat - saudou Lina com familiaridade. - No quer entrar e tomar um refresco? Est um calor infernal.
     - Obrigada, Lina - e com naturalidade: - Pablo est por aqui?
     - No - respondeu Alberto por sua mulher. - Acaba de ir fazer no sei o qu na cidade. Disse-me que se voc viesse, que era esse seu carro. Est pronto. Disse 
tambm que tem pouca gasolina e que voc deve encher o tanque antes de sair daqui.
     - Bem - estava sinceramente decepcionada, - que pena ele no estar.
     Lina no dizia nada. Parecia chateada consigo mesma.
     - Deixo o carro que Pablo me emprestou. Quero saber agora quanto lhe devo...
     - Pablo disse que no quer ouvir falar nisso.
     - Mas...
     - Foi o que ele me disse - murmurou Alberto dando de ombros. - Como o v freqentemente...
     - Aos sbados e domingos.
     - Pois fale com ele no sbado, Pat - disse Alberto.
     Lina olhou para um e para outro, mas no dizia nada. Parecia algo nervosa, de cenho franzido.
     Pat no sabia o que dizer. Por isso decidiu acabar logo com aquilo, subir no automvel e afastar-se dali.
     Estava desiludida. O que acontecia com Pablo?
     Fugia dela?
     Mas, por que motivo?
     Tinha que descobri-lo. Ela no era nenhuma tmida e sabia falar e fazer o que tinha em mente.
     - Ento me vou - disse. - Procurarei Pablo amanh ou depois. No vou esperar o domingo, nem o sbado.
     - Como queira, Pat. 
     Pat se foi. Lina no disse nada a seu marido. Entrou em casa mal humorada.
     Olhou para seu irmo sentado numa poltrona, olhando para a televiso sem som. Via-se que no prestava ateno nenhuma no que estava olhando.
     - Pablo - gritou ela, furiosa, - isso no tem perdo.
     Pablo no pronunciou palavra.
     - Esconder-se assim. Est se dando conta, Pablo?
     Claro que estava.
     Oxal tivesse ele coragem para v-la de perto, a ss, mas cada vez que pensava que a roara com os lbios, comeava a tremer.
     - No faz bem em fugir, Pablo - acalmou-se Lina. - Alberto no sabe que voc est aqui, do contrrio no teria dito aquilo com tanta naturalidade. Eu no disse 
nada porque morri de vergonha. Ela ficou desconcertada. Voc sabia que ela vinha e ela sabia que voc a esperava.
     - Lina. 
     - Que Lina o qu! Fez mal.  tmido, de acordo, mas um homem de sua idade no pode encolher-se assim frente uma moa to simples, agradvel, simptica.
     -  que estou certo de que a amo loucamente. No compreende, Lina?
     - O que tenho que compreender?
     - Que estou louco por ela - disse Pablo com um brilho estranho no olhar. - Ontem, eu descobri isso. No fui  praia por isso. Tive cimes. Depois, quando a 
vi sozinha na cafeteria e ela empenhada em que a levasse para passear ou danar... - apertou as tmporas com as mos. - Era mais fcil falar com ela quando no sentia 
isso. Isso!  como uma chama que me abrasa. De que vou falar-lhe? De meus sentimentos?
     - Sim, isso,  claro que  isso - gritou Lina sufocada, penalizada pela timidez de seu irmo.
     Pablo se levantou.
     To alto, to grande, e parecia um menino desprotegido, com os braos cados ao longo do corpo.
     - A lngua fica travada. No consigo dizer duas frases seguidas. No posso, Lina. Tento, mas no consigo! Sabe que me chamam de mudo?
     - At que combina - irritou-se Lina. - Os amigos tm o dever de conhecer os amigos. E se sabem que voc no fala nunca, s podem cham-lo de mudo.
     Pablo caiu de novo sentado e ento, Alberto entrou. Ao ver o cunhado ali, olhou-o interrogante.
     - Ei, voc estava a?
     - Estava - disse Lina furiosa.
     - Caramba! - parecia desconcertado. - Por qu, Pablo?
     - Est apaixonado por ela - explicou Lina sem prembulos. - E no se atreve a aparecer-lhe.
     Alberto foi sentar-se ao lado do cunhado.
     - Pablo, escondendo-se assim no conquista ningum.
     - No pretendo conquist-la, Alberto.
     - U, no diz que a ama?  uma moa bonita, delicada, simptica. Por que no quer conquist-la? Afinal, o que  voc? Um pobre coelho assustado? No entendo 
isso. Est com trinta anos, Pablo,  um homem realizado profissionalmente,  bem capaz de Pat corresponder a seus sentimentos.
     - No diga besteiras, Alberto - agitou-se Pablo. - Ela nem sabe que tenho sentimentos. Mas mesmo que soubesse daria no mesmo. Ela  uma moa desenvolta, moderna, 
inteligente, muito jovem... No sou o homem indicado para ela. Cada vez que penso que posso estar s com ela, no sei o que vou dizer-lhe. Pensar, eu penso, mas 
na hora de abrir a boca, no sai nada. E para no fazer papel de bobo, prefiro esconder-me.
     - Voc a ama, e est na hora de se casar. Por que no conquist-la? - insistiu Alberto. - V em frente, rapaz, ver que  fcil. Uma mulher gosta de ouvir palavras 
elogiosas. E voc  um homem delicado, saberia dizer-lhe que est linda, que  uma garota formidvel, e isto, e aquilo.
     Pablo se levantou de novo.
     - Tudo isto eu penso, mas na hora de diz-lo, fico mais mudo que uma porta. Entende?
     Alberto no entendia nada. Murmurou, pesaroso:
     - E tudo isto que lhe ocorre, Pablo, por qu?
     - Porque seu tmido.
     - No h homem tmido quando se trata de amor.
     - Olhe, Alberto, eu no poderia suportar ouvir um no de Pat, ou que se risse de mim.
     - Bem - olhou para sua mulher, - este seu irmo  um tremendo complexado.
     - Diz que isso vem de sua infncia - comentou Lina, desolada.
     - De sua infncia... Mas, Pablo, desperte, homem, que j no  criana, que tem um nome respeitado na cidade, que seu prestgio como industrial diz muito, que 
como homem no  feio e eu pouco entendo de beleza masculina, mas devo reconhecer que voc no  um homem feio.
     - Obrigado, Alberto. Obrigado por sua boa inteno, elogiando minha capacidade e meu fsico, mas continuo sendo eu e no creio que exista ningum que possa 
me mudar.
     Desistiram.
     Durante toda a semana andou pela oficina como uma sombra.
     
     
     CAPTULO 10
     No teve vontade de sair com suas amigas aquele sbado. Sabia aonde iam e com quem encontrariam, por isso preferiu ir sozinha a um cinema com um pretexto qualquer, 
pois tampouco lhes disse onde ia.
     Ela no fugia de Pablo, nada disso. Sabia j que aquele homem lhe interessava e o quanto estava apaixonada por ele, mas esperava que isso passasse.
     No lhe agradava deparar com um Pablo mudo e absorto, e ainda por cima estar ouvindo tolices da parte de Jaime e Daniel, que pareciam esquecer que ali perto 
tinham um amigo silencioso, bebendo usque atrs de usque.
     Domingo tambm no saiu com as amigas. Quando Irene e Luisa chegaram  cafeteria, Pablo ficou com os olhos muito abertos.
     Porque, claro, Pablo estava ali.
     - E Pat, no veio? - perguntou Jaime.
     - No. No sabemos onde foi. Ou se ficou em casa.
     Pablo pagou sua conta e se endireitou.
     - Vou dar uma volta - disse-lhes. Ningum lhe prestou ateno. Realmente faziam pouco caso dele, mas no por falta de amizade.  que Pablo se marginalizava 
com seus silncios, seu modo fechado de ser.
     Teve a coragem de passar vrias vezes diante da casa de Pat, mas no a viu.
     Domingo foi a mesma coisa e Pablo passou aquele fim de semana como um condenado  morte.
     Lina o notou.
     - O que  que voc tem?
     - Ela agora no sai mais.
     - Quem?
     - Pat.
     - Ah... Quer disser que no estava com suas amigas?
     - No. Nem sbado nem no domingo.
     - No me estranha. Estar chateada com o que voc lhe fez o outro dia.
     - E o que fiz eu?
     - Escondeu-se.
     - Que sabe ela?
     - Adivinhar. Afinal, voc sabia que ela vinha pegar o carro... e, no entanto, no estava.
     - Podia ter surgido mesmo um imprevisto.
     - Podia, mas no surgiu. O que aconteceu foi voc ter se escondido como um nenenzinho medroso.
     - No me estima tanto para dar essa importncia  minha ausncia.
     - Voc no sabe quanto o estima, no pode saber.
     Era certo.
     Estavam no meio da semana, fechava a oficina, aps todo o pessoal j ter se retirado, quando um carro entrou no recinto a toda velocidade, freando quase aos 
ps de Pablo.
     Pat desceu.
     Exatamente. Pat. Sincera e autntica.
     Pablo ficou esttico, tenso. Ao v-la to de repente, bonita, feminina, charmosa, ele ficou totalmente sem ao. S sabia que estava vivo, consciente, porque 
seu corao disparava e seus pulsos latejavam.
     - Patrcia - foi s o que exclamou.
     - Ol - disse ela, olhando-o de frente. - Vim pagar-lhe. No pense que me havia esquecido.
     - No..., no... como ia pensar isso? - e de sbito, viu-se dizendo, algo vermelho: - No foi esta semana  cafeteria com suas amigas.
     - H palhaadas que eu no agento, e essas sadas so uma dessas.
     - Oh...
     - Assim, diga-me quanto lhe devo.
     - Nada.
     Pat deu com o p no cho. Via-se que estava zangada.
     - Nada? E por que nada, se deixou meu carro novo?
     - Mas eu no fiz nada, Pat - gaguejava. - Foram os rapazes e vai para os gastos gerais. Repito-lhe que no foi nada. Eu nunca cobro aos amigos.
     - Por isso o carro de Jaime parece sempre sado da loja. Ele e os outros abusam de sua boa vontade, eh? Mas eu no sou igual a eles - amenizou o tom de voz. 
- Tem que me dizer quanto lhe devo, Pablo. No ficarei tranqila se no lhe pagar esse favor que me fez.
     Pablo evitava fit-la. De braos cruzados no peito, olhando para a ponta dos sapatos, murmurou:
     - No quer me dever um favor. Pois bem... eu gosto que me deva.
     Pat ficou algo confusa.
     Sentiu que ele se declararia a ela naquele momento, se no fosse to tmido. Se ao menos ela tivesse certeza de que Pablo realmente a amava, no hesitaria em 
abordar a questo, incentivando-o a imit-la. Ela no era nada tmida.
     s vezes, pensando nele, tinha quase certeza de que a amava. Mas, algumas atitudes de Pablo a desconcertavam, deixavam-na era dvida.
     Por exemplo, por que no estava na oficina, quando ela foi apanhar o carro? Sabia que ela iria, e no entanto, no a esperava. Estaria fugindo dela?
     - Dinheiro, no, Pablo - disse aps um silncio embaraoso, e apoiando-se numa rvore prxima ao carro. - Favores de dinheiro no me agradam. No sou rica - 
acrescentou pensativa, - mas ganho mais do que necessito para viver, de modo que me humilha que no me cobre.
     Ele sim, estava humilhado.
     No sabia como sair daquele beco sem sada.
     Quisera ser como seu amigo Jaime, pegaria Pat nos braos e a beijaria. Deus! O que ele faria com Pat se fosse sua garota, ou sua mulher, ou sua amante. Mas 
ele no queria Pat para sua amante, queria que fosse sua garota, depois sua esposa. Compartilhar com ela a vida, o leito. Cus! O leito.
     Ele na cama com Pat.
     Era para ficar louco.
     Por isso, instintivamente, levou os dedos  fronte.
     - Sente-se mal, Pablo? - perguntou Pat acercando-se.
     Que no se acercasse demais.
     Ele sabia como eram as mulheres e se conseguia romper aquela barreira que o atava  timidez, com certeza faria uma de suas burradas.
     E com Pat, no. No queria fazer nenhum mal a Pat. Adorava-a, venerava-a e a desejava como um louco.
     - Pablo, est plido. O que h? 
     Pablo olhou para o cu. Escurecia. Dali se ouviam as vozes distantes de Lina e de Alberto, dentro de casa.
     Sem querer, Pablo invejou a felicidade de sua irm junto com o marido. Ele tambm queria ter o prazer de conviver com Pat em sua casa, como sua mulher, com 
o mesmo sentimento profundo que ligava Lina a Alberto.
     Pat, alheia a seu drama, insistiu:
     - Pablo, fao questo de pagar-lhe.
     - No me torture assim - quase gemeu Pablo.
     Pat ficou petrificada.
     O que ocorria com Pablo? Olhava-a pesaroso, arrasado, infeliz.
     O que diziam aqueles olhos negros de expresso desvalida?
     Sbito, Pat se deu conta de algo desconcertante.
     Ficou coibida. Teve a certeza de que ele... a amava.
     Sem jeito, deu a volta sobre si mesma. De costas para Pablo.
     - No tento tortur-lo, Pablo - disse com voz opaca. - S tento pagar o que lhe devo.
     - E eu torno a dizer que no vou receber.
     Virou-se quase com violncia.
     - Por qu? - gritou exasperada. - Por qu?
     Viu-o encolher-se. Continuava apoiado no cap do carro e com os braos cruzados, a cabea baixa.
     - Desculpe, Pablo - murmurou de sbito acalmada. - Fico louca por ver que no tem coragem de cobrar o que devo.
     - J disse, no me deve nada, sendo minha amiga - afastou-se do carro. - No me pergunte mais nada. V embora.
     - No o entendo. No o entendo.
     E se encaminhava para o carro, mas antes de subir e j com a porta aberta, disse com alegria:
     - Um dia ou outro ter que me dizer quanto lhe devo. E se no disser, irei a Seat e perguntarei quanto cobram por esse tipo de servio e lhe enviarei o dinheiro.
     - No me ofenda assim.
     Disse-o de tal modo magoado que Pat girou para olh-lo. Pablo j se dirigia a um dos chals, em passo cansado.
     Pat entrou no carro e se foi.
     No compareceu tampouco aquele sbado  cafeteria, mas foi no domingo. No podia arranjar mais pretextos. Suas amigas eram boas e, embora ela detestasse o papo 
de Jaime e o riso idiota de Daniel, tinha que acompanh-las de vez em quando, para no se tornar grosseira.
     Ele ali estava. Mudo, absorto... Tantas vezes tentou encontrar seus olhos, tantas ele fugiu de seu olhar.
     Deu-se conta de que Pablo no lhe era indiferente; ao contrrio. As mulheres tm uma intuio especial para adivinhar certas coisas.
     Decidiu pensar no que faria para destruir a timidez de Pablo.
     
     
     CAPTULO 11
     Com o pretexto de pagar-lhe, comeou a ir  oficina uma ou duas vezes por semana.
     Cada dia lhe comovia mais aquela timidez, aquela fuga de Pablo, aquele terror que via em seus olhos, mescla de iluso e medo quando ela aparecia.
     Quando a conversa entre ambos morria, e ela via que Pablo nada faria para acend-la, ento entrava na casa de Lina e batia um papo com esta.
     Ficaram timas amigas.
     Lina era extrovertida, alegre, normal. Notava-se que amava muito o marido e o filho, e no menos seu irmo. Pablo, por sua vez, estando presente, mantinha-se 
 margem.
     Um dia Lina lhe disse:
     - Venha almoar amanh comigo, Pat. Farei um churrasco ao ar livre.
     Notou que Pablo corava. Que se encolhia mais.
     No queria faz-lo sofrer, por isso, dando uma desculpa, declinou o convite.
     Com o tempo, desistiu de cobrar a conta de Pablo e decidiu no voltar a sua oficina, diminuindo tambm suas idas  cafteria.
     Comeava o inverno e com ele as neves nos montes.
     Estava arrumando seu material de esquiar. No perdia domingo. s vezes, iam aos sbados a um refgio de uns amigos e s voltava no domingo  noite.
     Aquele domingo, antes que casse neves suficiente, resolveu ir  cafeteria. O frio era intenso e Pat ia envolta em um abrigo de peles, com um conjunto de cala 
comprida e bluso de l pura; calava botas de cano longa e na cabea tinha um gorro. Como sempre, estavam todos ali. Jaime e Daniel, Irene e Luisa. E Pablo, evidentemente.
     Como sempre, sentado ante a mesa, fumando, ouvindo, tomando seu usque, sem participar da conversa de seus amigos. Assim que ela chegou, Pablo se levantou para 
dar-lhe o lugar. Seus ombros se tocaram, ela viu como Pablo se agitava.
     Pat resolveu que no passaria daquele domingo. Ou comeava o namoro com Pablo, ou explodia.
     - Calculo que no domingo prximo - disse tirando o abrigo e surpreendendo o olhar de Pablo no seu busto - ter neve suficiente para irmos esquiar - lanou um 
olhar sobre Pablo. - Desafio-o, Pablo. Sei que  um esquiador de primeira, mas no sou ruim neste esporte.
     Pablo assentiu sem abrir os lbios.
     Mais tarde Luisa lhe diria, num aparte, enquanto Jaime e Daniel junto com Pablo haviam ido ver se chovia.
     - No entendo por que esse Pablo anda com a gente.  calado e antiptico. No sei que graa ele acha em sair conosco - e rindo zombeteira. - Imagina-o apaixonado?
     Aborreceu-se.
     Imaginava-o. Terno, galante, delicado e apaixonado ao mesmo tempo.
     - J tem idade para casar-se e s anda com seus dois amigos ou mais sozinho que um fantasma - dizia Luisa. - No  homem de se apaixonar. 
     Ela no pensava igual.
     - Sempre h um chinelo para um p doente - profetizou Irene.
     Chegou a ter dio de Irene. Como podia falar assim, se no o conhecia direito?
     - E o curioso - continuou Luisa -  que  um bom rapaz, e alm disso, rico... Mas eu no quero nada com ele. No suporto esse tipo de homens frios como o gelo.
     Frio Pablo?
     No o acreditava.
     Tambm isso saberia, se possvel naquele domingo.
     De que modo?
     Seria fcil...
     A conversa foi interrompida quando apareceram os trs amigos.
     - Continua chovendo - anunciou Jaime, sentando-se de novo junto a Luisa. - Daqui a pouco no se pode respirar na cafeteria. Que tal se fssemos a uma discoteca?
     Elas disseram que sim, mas Pat ficou calada. Estava bolando algo. Sabia que Pablo no quereria ir  discoteca.
     - De acordo, Pat? - perguntou Daniel.
     - Vou para casa - disse categoricamente. - Tenho algo que fazer e se for  discoteca, volto tarde e amanh preciso madrugar - de repente, olhou para Pablo. 
- Acompanha-me at em casa, Pablo?
     Viu-o perder a cor, pestanejar, encolher-se. Mas sua voz possante, disse:
     - Sim, claro...
     Pat se levantou e vestiu o abrigo, rodeando o pescoo com um cachecol e empunhando o guarda-chuva.
     - Iremos sob o meu guarda-chuva, Pablo, a menos que voc tenha um maior.
     - Nem maior nem menor- disse ele, levantando-se. - Mas, se quiser, apanho meu carro e a levo nele.
     - E onde est seu carro?
     - Longe,  verdade. No encontrei vaga por aqui...
     Enquanto isto, os outros se despediam.
     - Vamos, Pablo. Claro que se voc preferir, pode ir com eles  discoteca.
     - No..., no... - e com uma expresso estranha. - O que faria eu numa discoteca?
     Saram. Pat abriu o guarda-chuva e o entregou a Pablo.
     - Tome... Como  mais alto que eu... Acho que d para nos proteger um pouco.
     E, com a maior naturalidade, deu-lhe o brao. Pablo se estremeceu e ela notou isso.
     Instintivamente se oprimiu contra ele.
     Caminharam assim, silenciosos e muito juntos. Pablo julgava que no iria agentar muito tempo aquela proximidade. Estava trmulo de emoo.
     - Para danar - dizia Pat, que percebia tudo, - no fao a mnima questo.
     Ele, calado.
     - E voc, no sabe danar?
     - No...
     O portal estava prximo e Pablo se separou logo dela.
     - Bem - disse apressado, - boa noite.
     - Eh, eh, Pablo...
     Ele, como chovia, refugiou-se no portal algo escuro.
     - Detesto o inverno pelo rpido que escurece - disse com muita rapidez.
     - Pois eu gosto. Gosto da escurido e dos dias de chuva. Ei, que horas so?
     Ele levantou um pouco a manga da camisa e do casaco.
     - Dez horas.
     - tima hora para se ir a um cinema, no?
     E como Pablo ficasse calado, ela acrescentou:
     - Aqui perto h um muito bom... 
     O mesmo silncio.
     - Ento, Pablo. Convida-me, ou no? 
     Tambm ela, ao diz-lo, tinha a voz trmula, e ele muito mais, ao responder:
     - Voc quer ir... comigo?
     - Acho que fui bastante clara. Ou voc no quer?
     - Como voc disse que tinha algo que fazer em casa...
     - Era mentira. S queria estar sozinha com voc.
     Outro se lanaria ao ataque. Pablo ficou rgido. Mas a fitava, palpitante, ansioso.
     - Sim, Pablo. Ou voc  cego, ou se faz.
     - Cego... eu?
     - Devia perceber certas coisas. Mas  to tmido, que uma garota, mesmo sabendo que no  o normal, tem que dizer claramente as coisas, se no quiser se calar 
para sempre.
     Pat arriscava tudo, Pablo teria que aceit-la ou recha-la. De qualquer jeito, ela no podia se calar por mais tempo.
     - Preferia - acrescentou Pat, em voz mais baixa - que fosse voc e no eu que dissesse estas coisas. Mas, como voc no as diz...
     - Que... que tenho..., que dizer?
     - No estou lhe pedindo que fale de automveis agora, pois nem sobre isso voc tem demonstrado interesse em falar comigo. Quero que falemos de voc e de mim.
     - Bem...
     - Pablo - ela quase chorava - quer que eu saia correndo envergonhada e no olhe mais para voc?
     - Oh, no - disse, atrapalhado. - Isso, no, Pat.
     - Ento compreenda de uma vez o que quero dizer-lhe.
     - Que a leve ao cinema.
     - No! - quase gritou Pat desesperada. - Pouco me importa o cinema. Isso foi um pretexto para puxar conversa com voc. Puxa, no  fcil faz-lo falar, mas 
tampouco  fcil que entenda o que quero dizer-lhe...
     Pablo temia entender, por isso "no queria" entender.
     Surgira-lhe um n na garganta, e estava to tenso e rgido, que parecia um poste.
     
     
     CAPITULO 12
     Pat, apoiada na parede, tinha o olhar brilhante e os lbios midos, entreabertos.
     Sob o olhar paralisado de Pablo, quase gritou:
     - Entende ou no entende?
     Ele sempre teve medo de fazer um papelo.
     Ele podia ter entendido errado. Ela podia estar se referindo a qualquer coisa, menos a... amor. Ele faria papel ridculo, derretendo-se todo, e ela morreria 
de rir dele.
     - Pablo - gemeu Pat sufocada, - no entende, verdade?
     Pablo deu um passo,  frente. Meteu o dedo entre a gola da camisa e o pescoo.
     - Pat... no sei se devo entender - passou os dedos pelo cabelo, alisando-o maquinalmente. - Pat, eu... No sei... se quiser..., eu a levo ao cinema.
     - No quero ir ao cinema - disse Pat desalentada. - Est bem, Pablo, est bem. Acho que me equivoquei com voc.
     - Equivocou-se? - agitou-se Pablo. - Em que sentido?
     - Pensei... bem, sim, isso. Pensei que estava apaixonado por mim.
     Pablo vibrou como se lhe acendesse uma centelha.
     Estirou-se, encolheu-se, olhou para Pat, deu alguns passos.
     - Pat, est zombando de mim?
     - Por qu?
     - O que est dizendo... se estou apaixonado por voc. Que voc pensou que eu estava.
     - Pensei - disse Pat, mordendo os lbios, - mas vejo que me enganei.
     - Zomba de mim, Pat? - tornou a perguntar, a voz enrouquecida demais.
     E deu outro passo  frente.
     - Eu estou por voc - disse Pat perdendo a pacincia e quase a ponto de chorar. - Ria-se de mim, se quiser. Ou v cont-lo a seus amigos que eu me declarei. 
 a verdade mesmo e no vou ocult-la de mim mesma. Mas fique sabendo - Pablo no podia falar porque ela falava sem cessar - que s lhe falei nisso porque pensei 
que era correspondida, e voc sendo to tmido, no se atrevia a faz-lo. Pois ai est. J o disse. Tome-o como queira.
     Pablo j estava perto dela e muito calidamente tirou o leno do bolso e deu-o a ela.
     - Enxugue as lgrimas, Pat - sussurrou com ntima ternura. - Est chorando. Sim, Pat, estou apaixonado por voc. Mas... tem razo, nunca teria me atrevido a 
diz-lo.
     - E tive que ser eu - murmurou Pat, trmula.
     Apertou o rosto contra o leno e ficou assim um momento, at que a mo de Pablo lhe levantou o queixo.
     - Pat, no chore.
     -  que sinto vergonha...
     - Asseguro-lhe que sou um estpido. No posso remedi-lo. Mas agora... se no for brincadeira sua...
     - Ainda pensa isso?
     - No, no - parecia tranqilizar-se. - Acho que no est brincando. Voc no  disso. Na verdade, sou um homem tmido, mas... tambm sou honesto, sincero. 
No lhe falei do meu amor, como ia faz-lo? Nunca pensei que voc...
     - Mas eu o adivinhei e assim, s cegas, pouco a pouco, fui me ligando a voc... No sei se  para toda a vida. Isso depender, suponho, de como nos entendamos. 
Se  que voc no leva na brincadeira esse assunto...
     - Eu, na brincadeira? - e ficou nervoso. - Levar voc na brincadeira?
     - Sei l. Seus amigos so grandes paqueras, mas de casamento, nem querem ouvir falar.
     Pablo procurou explicar o ponto de vista de seus amigos, e o seu prprio.
     - Eles no ganham o bastante para manter uma famlia. Ouo-os falar nisso. Gostam delas... mas no podem se casar to cedo. Eu no tenho esse problema. No 
quero perder tempo - olhava-a hipnotizado. - Quero casar o quanto antes. Sinto que no terei intimidade com voc enquanto no for minha mulher.
     Pat o fitou longamente e Pablo estremeceu. Foi ela, menos tmida, e claro, mais audaz, quem ficou na ponta dos ps e deu-lhe um beijo na boca.
     Para Pablo foi como se explodisse o universo com todas as suas galxias dentro.
     Cerrou-a pela cintura e quando ela ia separar-se, prolongou aquele beijo quente, fogoso, cheio de um ardor que desconcertou e assombrou Pat.
     Ele tmido? Ele frio?
     Era um temperamento ardente, vibrante e sensual.
     Havia-a dobrado contra si e a desejava como um desesperado. E Pat acabou quase tendo-lhe medo.
     Meio trmula, afastou-o sussurrando:
     - Pablo, contenha-se.
     Pablo se conteve em parte. Afastou-se dela,  verdade, mas continuou excitadssimo. 
     - Pat,  verdade isto, ou estou sonhando?
     - Claro que  verdade, Pablo... S que voc me assustou um pouco.
     - Perdoe-me, Pat. Sou um, bruto. 
     Impulsiva, ela lhe passou os dedos pelo cabelo.
     - Est perdoado, mas seja mais cuidadoso... no futuro.
     - E como um homem  cuidadoso, amando uma mulher?
     - Sei l. Mas voc me tomou nos braos como se fosse destruir-me.
     - Isso no, Pat - disse com ternura. - Voc me inspira a maior ternura, uma imensa paixo. Tem que desculpar-me. No sei dizer coisas bonitas. S sei que a 
amo - tornava a abra-la, e Pat o sentia excitado. - Como um louco. E no sabe o que sofri...
     - E por que custou tanto a me dizer isso?
     - Tive medo que zombasse de mim. Voc era a mais bonita do grupo, a mais inteligente, a mais elegante... Pensei at que estava de flerte com Jaime.
     - J lhe disse a opinio que tenho sobre ele.
     - Podia ter-me dito aquilo para disfarar.
     - Pablo, no pense tanta bobagem, e no me aperte tanto, seno eu sufoco.
     Beijou-a de novo em plena boca daquela maneira possessiva e absorvente. E Pat sentiu que uma fraqueza a dominava e que uma fora interna a empurrava para ele. 
Correspondeu aquele beijo, levantando os braos e os passando em volta do pescoo masculino.
     Pablo se mostrou tal como era, sem timidez, sem complexos. Naquele momento, no os tinha. Era uma mescla, aquele homem, de fogo e ternura, de paixo e ardor, 
de sensibilidade e instinto.
     Pat, um pouco aturdida pelas carcias dos dedos masculinos que sentia deslizar-se por sua cintura e suas costas, separou-se encabulada.
     - Pare, Pablo.
     - Sim - dizia ele.
     Mas continuava atraindo-a para si e procurando-lhe e boca com a sua.
     Ouviram-se passos e os dois se separaram. Um vizinho passou e deu boa noite, perdendo-se no elevador.
     Pablo tornou a pux-la para si, mas Pat o afastou com mo trmula:
     - Basta, Pablo, voc ...
     - E voc gosta que o seja.
     - No  isso.  que...
     - Sim, Pat, j sei... De qualquer maneira... deixa-me beij-la outra vez. Voc no sabe o que isso significa para mim...
     Deixou.
     Quando soube que estava no elevador, sozinha, sentiu-se mais perturbada do que nunca.
     E quando chegou diante de sua tia, s soube dizer:
     - Estou namorando firme Pablo. 
     Lcia a fitou alegremente.
     - Oh,  mesmo? Conseguiu ele vencer a timidez?
     - Eu o forcei a isso.
     - Patrcia!
     - No havia outro jeito, tia Lcia - riu Pat.
     - Meu Deus! E no se sente envergonhada?
     - Entre a vergonha e meu amor, a escolha  bvia.
     - Deus tenha piedade! Que juventude, a de hoje!
     Pat pensou que se sua tia fosse de sua gerao, no teria ficado para titia...
     Mas em voz alta no disse nada. Foi para a cama sonhar com Pablo, aquele Pablo cuja timidez, ao menos com ela, era uma utopia...
     
     CAPTULO 13
     Ainda estavam na saleta vendo televiso quando chegou Pablo. Assim que o viu, Lina se levantou de um; salto.
     - Pablo, o que houve?
     Pablo deixou-se cair numa cadeira e, esticando as pernas, respirou fundo, depois soltou o ar lentamente.
     - Estou noivo.
     Assim. Com ardor e com ternura imensa.
     Lina ficou boquiaberta, mas Alberto pediu-lhe:
     - Lina, saia da minha, frente, quero ver a cara de Pablo. J sei quem  ela, porque se no, no estava to feliz.
     - Pat. Patrcia. E vamos nos casar logo. Dois, trs meses. Mais, no agento.
     Parecia outro. Nem tmido, nem complexado. Cheio de algo ntimo que lhe saltava aos olhos e  boca em um sorriso amplo, delatador do quanto sentia dentro de 
si.
     - Conte como foi - quase chorava Lina.
     No, isso no.
     Isso era dele e de Pat.
     Que lhes bastasse saber que estavam noivos, que se entendiam, que formariam um par ideal, apaixonado, ardente... Pat era fogo puro e ele no ficava atrs.
     - Que importa, Lina. O caso  que estamos comprometidos. E vamos nos casar o mais breve possvel. J pensou? Vou me casar com a mulher que eu amo, e ela me 
ama da mesma forma, com a mesma intensidade.
     E rindo, dizia:
     - Quem diria, meu Deus, que eu ia conquistar a garota mais bonita do grupo.
     Depois, conversou muito com Lina e Alberto sobre seus planos, o que ia fazer e desfazer. De como ia decorar a casa ao gosto de Pat e mil coisas mais. Depois 
foi para a cama sonhar com ela.
     E na manh seguinte, tendo que ir  cidade, foi falar com Jaime e contou-lhe a boa nova.
     - O que voc disse? - Jaime levantou vivamente a cabea. Tinha os olhos muito abertos.
     - Que vou me casar com Pat. Ficamos noivos ontem.
     - Olhe, Pablo, no  hora de brincadeira.
     - No estou brincando.
     Jaime acabou acreditando. E, assim que Pablo saiu, telefonou para Daniel.
     - Prepare-se para ouvir a notcia mais louca que j ouviu em sua vida.
     - Fale logo, estou ocupado.
     - Pat e Pablo ficaram noivos.
     - Ahn! - e depois, uma sonora gargalhada. - Ento, estavam escondendo o jogo, os malandros.
     - Mas, o que fez aquele nosso reprimido amigo, para conquistar a garota mais bonita do bairro?
     Depois de novas exclamaes de espanto, Jaime desligou e telefonou para Irene. Em seguida para Luisa.
     Nenhuma das duas quis acreditar. 
     Jaime, que sempre teve uma ponta de inveja de Pablo, explicava:
     - S pode ter sido por dinheiro. Pablo tem uma situao financeira invejvel.
     As moas no podiam crer, pois conheciam Pat. E sabiam que Pat era a pessoa mais desinteressada do mundo.
     -  incrvel, no, Luisa? Voc acredita nisso?
     - Sei l. H tantas surpresas na vida...
     
     Viam-se todos os dias. Foi uma semana inesquecvel. Na sexta-feira  noite, ele lhe disse:
     - Suas amigas sabem?
     - Sim. Parece que Jaime ou Daniel andou lhes telefonando para contar.
     - E o que dizem elas?
     Ela comeou a rir. Estava nos braos dele.
     - Eu nunca me preocupo com o que dizem os outros. Se sou feliz, os outros que encontrem a forma de s-lo, se puderem. Eu o amo, cada dia mais. E voc a mim 
tambm?
     - Ainda pergunta?
     E de novo apertava-a em seus braos, de forma que Pat quase fugia espantada porque o amor de Pablo quase a sufocava, embora a encantasse tambm.
     Chegou o sbado e os dois foram  cafeteria j um tanto tarde. Os outros os cumprimentaram, sorrindo. Pat sorriu tambm e comentou coisas sem importncia. Pablo, 
como sempre, ficou silencioso e pediu usque.
     Pat no se preocupou em que os outros pensariam dele. Ela sabia como era Pablo. Um Pablo que nada tinha a ver com aquele homem absorto que bebia silenciosamente 
seu usque, enquanto ela conversava com os amigos.
     Sentados os cinco  mesa, falavam de coisas alheias ao noivado dos dois.
     Pat pensava que aquele homem sisudo nada tinha que ver com seu noivo. Ficou pensando no que diriam Irene e Luisa, Jaime e Daniel, dos dois. Por isso, no fundo 
lhe dava certa raiva que Pablo ali ante seus amigos, nem sequer lhe desse ateno.
     Quando se cansou de conversar com eles, que nada de positivo diziam, levantou-se e chamou Pablo.
     Este, acudiu imediatamente.
     - Voc disse que hoje iramos a casa de sua irm.
     -  verdade. Havia me esquecido. Esto nos esperando para merendar - olhou para o relgio. - Bem, tchau para todos - e segurando Pat pelo brao, saram da cafeteria.
     Houve um silncio entre os quatro que ficaram ali.
     Jaime comentou, cheio de inveja:
     - No me digam que um sujeito assim pode conquistar uma pessoa alegre e esfuziante como Pat.
     As amigas tentaram defend-la, embora no ntimo pensassem como Jaime. Daniel comentou:
     - Continua sendo um bom amigo, mas mais tolo e tmido que um matuto.
     - No os critiquem assim - pediu Irene. - Pat tem muita personalidade.
     - Mas se casa por dinheiro com Pablo. 
     As duas, que eram fiis, tentaram aliviar a questo:
     - Talvez ele tenha encantos que ns no conhecemos.
     - Nem sequer olhou para ela. E ela, menos ainda.
     - Parecem dois estranhos. O que faro quando esto a ss?
     - O silncio que deve reinar entre ambos deve ser intolervel, seno ridculo.
     - Ou todo o contrrio, Jaime - protestou Luisa.
     Jaime no se conformava.
     Ele sempre teve uma queda por Pat, mas nunca teve a menor chance com ela. Por isso estava to revoltado que outro, menos dotado, a seu ver, a, conquistasse.
     - Nunca vi Pablo dizer duas palavras seguidas - resmungou. - Nem sei como pde progredir na vida. Quando estudantes, ele se matava de estudar, e no fim, tirava 
notas menores que eu, que no olhava para os livros. Atualmente, tem um negcio fabuloso, enquanto eu no passo de um empregadinho. E por outro lado, eu sempre soube 
lidar com garotas, e no fim quem ficou com Pat, foi ele... 
     Luisa se chateou.
     - V-se que ficou frustrado por t-la perdido.
     Jaime fez um gesto desdenhoso.
     - No  isso. Um dia, disse-lhe umas gracinhas e ela ficou toda arrepiada, dizendo que no gostava disso. Desde ento, est entalada aqui na minha garganta. 
E agora que se casa com o dinheiro e a posio de nosso infeliz amigo, piorou.
     Puseram-se os quatro a discutir o assunto.
     Irene e Luisa defendiam Pat. Os rapazes no acusavam Pablo, acusavam Pat, chamando-a de interesseira, de aproveitadora.
     -  claro que no h amor - insistia Jaime. - Ele sim, claro que a ama, mas no saber como dizer-lhe. Mas ela se aproveita de sua timidez.
     A discusso durou at que os quatro deixaram a cafeteria, bem mais tarde.
     
     CAPTULO 14
     Foi ao sair da casa de Lina que ela lhe disse.
     Haviam merendado com Alberto e Lina e foram duas horas que Pat viveu alegremente. Lina lhe explicou que a casa onde viveriam quando se casassem era igual aquela, 
mas que Pablo dizia que seria ela, Pat, quem a decoraria.
     - Se est ao gosto de Pablo, vai me agradar, tenho certeza.
     - Ele se entendeu com os decoradores. Mas de todo modo talvez voc queira dar um toque mais pessoal.
     Alberto props ir ver a casa. E foram os quatro.
     Pat achou que a casa era tal e qual ela havia sonhado. Ali se percebia a tremenda personalidade silenciosa de Pablo. Era um estilo entre o clssico e o moderno. 
Os detalhes, sem ser exagerados, tinha um gosto apurado, especial.
     - No precisa mudar nada - decidiu. - Gosto de como est agora.
     E era verdade. Ela no sabia mentir.
     Mas havia algo que a incomodava e isso teria que dizer a Pablo na primeira oportunidade.
     Alis, pensou em diz-lo logo ao sarem da cafeteria, mas o viu to entusiasmado, sentiu-o to seu, to ardente e to terno ao mesmo tempo, que no quis estragar 
aquela felicidade.
     Mas tinha que diz-lo.
     No queria que ocorresse de novo. De suas amigas, nada temia. Eram sinceras. Estimavam-na realmente. Apesar de nunca ter simpatizado com Jaime, aquilo nunca 
foi motivo de se desentenderem. Cada uma era como era, e ela era assim, independente, e que Luisa suspirasse pelo tolo Jaime, no queria dizer que deixassem de ser 
amigas.
     Mas ela temia a lngua ferina de Jaime e a inveja que pressentia haver nele, pois no esqueceu que foi o primeiro a cortej-la.
     Atalhou-o logo, sem deixar lugar a dvidas e por isso Jaime tinha uma birra contra ela, coisa que s ela percebia e no dava a mnima importncia.
     Estava loucamente apaixonada por Pablo. Quanto mais o conhecia mais perto dele se sentia; e, ao pensar que iriam casar, conviver e compartilhar a mesma casa, 
o mesmo leito, achou que no devia haver segredos entre ambos.
     Assim, quando estiveram a ss, j no carro, ela foi logo dizendo:
     - Tenho algo a dizer-lhe. 
     Fitou-a rapidamente.
     - No gostou da casa.
     - Gostei e quero que fique tal qual est. Se mais tarde quisermos mudar algo, o faremos de comum acordo. De momento, est tudo timo.
     - Mas voc ficou sria. O que foi?
     -  por causa de seus amigos.
     - Aconteceu-lhes algo?
     - No sei, nem me interessa. Mas o fitavam como se fosse um animal raro e para mim com deboche.
     - No reparei, Pat.
     - Voc nunca repara em nada. Eu sim, reparo em tudo - havia apoiado a cabea no ombro do noivo. - Jaime no  um bom carter.
     - Ora, no diga isso...
     - Pablo, tenha cuidado com ele, pois qualquer dia lhe apronta uma que pode mago-lo muito.
     - Como o qu?
     - No posso sab-lo ao certo. Por exemplo, no quero que me beije como faz quando estamos a ss, mas pelo menos, quando estivermos na cafeteria, olhe para mim, 
diga-me algo, pegue em minha mo...
     - Oh - e comeou a rir divertido. -  por isso? Eu no sei representar, Pat. Eu a amo, mas s a mim interessa sab-lo. E no h homem mais apaixonado do que 
eu - detinha o carro. - De modo que...
     - Mas, o que est fazendo, querido?
     - Tenho que beij-la agora mesmo. Morro de vontade, h muito tempo. Mas no me pea que banque o sentimental na frente dos outros.
     Beijava-a j.
     Um beijo que deixou Pat toda trmula.
     - Pablo, no seja... assim.
     - Voc gosta que eu seja... assim. Portanto, como voc  igual a mim, o melhor  casarmos o quanto antes, se no quer que eu apresse as coisas.
     - Louco, louco.
     - Sei que voc quer tanto quanto eu... 
     Era verdade.
     - Eu no demonstro meu amor para que os outros vejam - continuava dizendo Pablo sobre seus lbios. - Isso fica para Jaime e outros iguais a ele. Depois, na 
hora da verdade, vai ver que no so de nada. Eu me garanto...
     - Sem-vergonha - riu Pat. - Vamos indo?
     - J sei, est fugindo de mim. Mas depois de casados, no vou lhe dar descanso. E no poder fugir de mim.
     
     Quase no iam  cafeteria.
     Os amigos ficavam imaginando o que tanto faziam s os dois. Luisa costumava dizer:
     - Pat no  de se contentar com pouco. Algum encanto deve ter nosso amigo, para prend-la desse jeito.
     - Ora, aquele  um bobalho.
     Bobalho! Dissessem isso para Pat, que lutava para tir-lo de cima! Para com ela, nada tinha de tmido. Muito pelo contrrio. Mas para os outros, continuava 
sendo o grave, o srio, o calado.
     Mas isso agora pouco importava a ela.
     Durante aquele inverno foram esquiar cada domingo, e rolavam juntos pela neve, rindo felizes.
     Um dia, ele lhe disse:
     - Ou nos casamos logo, ou voc acaba ficando grvida.
     Decidiram marcar o casamento.
     - Certo - dizia Pat assustada com o ardor do noivo - depois do Natal, ento.
     - Antes. Se no, eu no respondo por mim.
     Finalmente, houve o casamento. Uma cerimnia simples, mas muito bonita.
     Os noivos, neste momento estavam no hotel. Pat, bastante nervosa, pedia a Pablo:
     - Querido, tenha um pouco de pacincia. Estou to nervosa.
     Pablo se acercou, abraou-a.
     - No tema, Pat, no tema. Meu amor  grande, mas minha considerao por voc e maior ainda. Voc  minha esposa, e a pessoa a quem mais prezo neste mundo. 
No vou mago-la nunca, em nenhum sentido.
     Beijava-a com cuidado.
     No ora tmido, no.
     Nem ela.
     Eram iguais e se amavam com a mesma intensidade.
     No saram da sute daquele hotel seno ao anoitecer no dia seguinte e jamais Pat, to sensvel e espiritual, poderia esquecer aquela noite e aquele dia...
     

Corin Srie Azul 77 - Meus trs carinhos - Me turba su timidez - Corin Tellado 

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